sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Quem tem culhão pra ser Madonna?

O que é aquela mulher, alguém me explica?
Não são os músculos. Não é a vitalidade. Não é a versatilidade. Não é o carisma. É tudo isso, mas é mais.
É uma mulher. Autêntica, feminina, meiga, forte, bruta, ousada. Uma mulher plena, como todas as mulheres podem ser.
Não sou de ficar cultivando ídolos, mas é justamente o que a Madonna tem de humano que me comoveu tanto no show. Claro que tem toda a produção, impecável. Tem a tecnologia dos telões de alta resolução, dos vídeos. Tem as coreografias e o figurino. E toda a mistura étnica, muito de espanhol, árabe e cigano.
Mas o que ela tem mesmo é a consciência de seu tamanho e a coragem de se mostrar assim, enorme, viva, inteira. Uma inspiração.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Se fosse ficção, ninguém acreditaria

Quando entrei na faculdade, logo ficamos amigas. Um dia, ela me disse uma frase muito engraçada: "Nós somos tão amigas que até menstruamos juntas". Não sei se era fato, mas parece que isso acontece com mulheres muito próximas. E continuamos amigas até hoje.
Nós duas nos casamos com colegas de faculdade, nós duas nos separamos quando eles se apaixonaram por mulheres com o mesmo nome. E esta semana nós duas descobrimos que essas mulheres homônimas vão ter filhos de nossos ex-maridos.
Vou guardar essa história, junto com tantas outras, para o roteiro da comédia romântica que ainda vou escrever. Agora que estou virando roteirista...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Presentes de grego

Minha mãe sempre teve um critério estranho para presentear as pessoas, especialmente se elas fossem mais ricas que nós. Para ela, era preciso sempre surpreender e dar alguma coisa de que a pessoa realmente gostasse. Mesmo que a gente não tivesse nada parecido, e que custasse muito mais do que meu pai podia pagar.
Com a gente, porém, houve momentos bizarros. Quando eu comecei a ganhar meu dinheiro e a gastá-lo loucamente com roupas e sapatos, minha mãe chegou à conclusão de que eu não precisava de nada. Então, no meu aniversário, decidiu me dar coisas úteis, que eu não me lembrava de comprar: uma tesourinha de cortar unhas e um guarda-chuva.
Estava agora olhando para uma lata de torrones italianos e foi aí que me lembrei desses presentes de grego. A lata é bonita, e veio cheio de torrones macios. Mas eu não gosto de torrones. Acho que a receita deve levar a mesma essência do panetone e de outros doces italianos. Não gosto de nada disso.
Foi o último presente de aniversário que ganhei do meu ex-marido. Era exatamente o momento em que estávamos nos separando. Eu estava deprimida e gorda, e passava horas na frente da televisão comendo doces. Nada mais lógico do que ganhar mais uma lata de doces, não é mesmo?
Todas essas experiências, na verdade, me deixaram bem calejada e me prepararam para a vida. Que venha o amigo secreto de Natal!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um novo reality show

Assistindo ontem aos meus reality shows favoritos - que são sempre aqueles que as pessoas fazem coisas, e não os que elas ficam tomando sol na piscina -, pensei que o governo brasileiro poderia criar um reality muito interessante. Duas empresas bem pequenas que tentaram ser honestas seriam selecionadas e começariam a contar o que fazem, como fazem e porque estão devendo impostos até as calças.
Aí um host tipo o Ty, aquele mala do Extreme MakeOver Home Edition, que dá casas imensas para pessoas cheias de filhos, entrevistaria vários clientes e ex-funcionários, perguntando se a empresa foi legal. Alguns ex-funcionários chorariam, dizendo que nunca tiveram um trabalho tão divertido, mas que trabalharam pra cacete e não entendiam como a empresa tava sempre no limite.
Daí o governo escolheria uma das duas empresas para receber uma anistia na dívida e uma consultoria administrativo-financeira. Se a empresa quisesse fechar e demitir todo mundo, o governo facilitaria o processo e bancaria uma viagem de estudos para os sócios para algum país onde as coisas funcionam, para que esses seres tão cheios de boa vontade depois trouxessem de volta o know-how para o Brasil. Mas como aqui tudo cai no esquecimento, os sócios ficariam na Escandinávia e não voltariam nunca mais, contribuindo para o progresso da terra de Thor, como tantos outros patriotas que se mandaram.

Medos civilizados, medos ancestrais

Estou devorando o livro "A Casa do Califa", de Tahir Shah. O escritor inglês esteve no Brasil há alguns dias para o lançamento desse livro, o primeiro dele em português (sim, o meu é autografado!). Ele é especialista em livros sobre viagens insanas. Já tinha lido um em que ele vai para a Índia à procura de um grande mágico, de quem se torna aprendiz, e depois viaja por todo o país tentando desvendar os truques de gurus e místicos.
Neste novo livro, ele fala sobre a casa que comprou em Casablanca, no Marrocos, para onde se mudou com a família em busca do sonho de uma vida mais gregária, ensolarada e feliz. O que ele encontra, a princípio, é a superstição e os vieses da mentalidade marroquina, de certa forma muito parecidos com os que encontrou na Índia, e, por que não?, no próprio Brasil. Um misto de valores culturais e religiosos altamente ilógicos e quase irracionais para uma pessoa nascida na Inglaterra, ou em São Paulo. Se de um lado ele é uma pessoa totalmente devotada à causa de entender aquela cultura estranha, de outro se vê às voltas com a malícia dessas pessoas que, a primeira vista, poderiam ser rotuladas de "ignorantes", "fanáticas" e "supersticiosas".
A leitura é uma delícia e as peripécias dão angústia, porque no final ele está sempre sendo solenemente passado para trás. Ainda não sei aonde isso vai dar, quero acreditar que ele finalmente encontra o que procura, mas não sei...
De qualquer forma, nesse embate entre o racional e o supersticioso, me veio um pensamento. Quando se acredita em algo transcendental, seja deus ou qualquer outra abstração do gênero, a vida ganha cores extremas. Os medos são resultado da sujeição da pessoa ao imponderável, a forças estranhas e incontroláveis.
O autor se torna amigo de um colecionador de selos que vive na favela que cerca sua propriedade. O homem lhe conta que, aos 7 anos, uma feiticeira apareceu na vila onde ele morava e disse a seus pais que se ele não fosse entregue à primeira pessoa que passasse, morreria. Conclusão: o menino foi doado a um carroceiro e nunca mais encontrou sua família.
A história é trágica, mas tem essa marca do imponderável que estamos removendo cada vez mais de nossas vidas. O que pode acontecer de incrível hoje conosco, tão racionais que somos? Um caminhão desgovernado entrar em nossa sala enquanto assistimos TV? Um pedófilo abordar nosso filho na Internet? Um hacker entrar na nossa conta bancária e roubar alguns caraminguás? Nossos medos são tão sem graça... Ninguém mais teme ser seqüestrado pelo Homem do Saco ou por uma horda de ciganos vendedores de crianças. Não tem monstro no armário, nem Cuca nem Saci.
Esse choque de culturas é rico e assustador, porque coloca nossa ânsia comparativa em ação e nos deixa perdidos entre a nossa noção de civilização e os instintos mais primitivos, que no fundo são bem mais divertidos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meu asilo particular

Já decidi onde vou morar na velhice, quando tiver Alzheimer. Uma cliente me falou de um lugar onde as pessoas que hoje têm Alzheimer vivem em um ambiente com uma decoração que remete às lembranças de juventude deles. Todos têm seus quartos e uma praça coletiva com um cinemão com pôsteres de clássicos do cinema, bancos, coreto, jardim. Acho que conforme as novas gerações forem chegando, eles vão atualizando a decoração. Se eles fizerem uma decoração punk, podem me mandar pra lá. Até já perguntei se dá pra ir pagando desde agora. Tomara que toque Sex Pistols.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Vergonha na cara - III

A última palestra que assisti hoje foi de um professor da FGV-RJ, um figura, debochado, divertido, que bota o dedo na ferida. Um iconoclasta. Ano passado já tinha assistido o cara, e este ano a palestra foi bem parecida. Ele foi o primeiro brasileiro a fazer doutorado em desenvolvimento sustentável e afirma - diante daquele monte de gente que a princípio só vê dinheiro na frente - que não adianta, não tem jeito, problema "ambiental" não existe: existe problema social e de produção.
Quer dizer, não adianta dizer que o ar está poluído. Por que está poluído? Porque o padrão de consumo é absolutamente inviável. Não adianta criar catalisador, tem que parar de andar de carro. Não adianta discutir política ambiental. Tem que discutir a mudança do paradigma do consumo. Simples assim.
Ele também diz que a verdadeira globalização é a dos problemas ambientais. Cita dados de telefonia e internet, que estão longe de ter se disseminado totalmente no planeta, e mostra o exemplo do Chile em relação à destruição da camada de ozônio. Segundo ele, a América Latina inteira responde por 3% do CFC que é liberado na atmosfera. Desses 3%, Brasil e México são responsáveis por 1,5%. Peanuts, certo?
Pois o maior problema de buraco na camada de ozônio está em cima da Patagônia e vem matando muitos animais e criando problemas de saúde pública tão graves que o Chile já pensa em decretar o toque de recolher ecológico, proibindo as pessoas do sul do país de ficarem expostas ao sol entre 11h e 15h. Vejam só a ironia da coisa: as ovelhas da Nova Zelândia soltam seus gases na atmosfera e assim contribuem para que as ovelhas chilenas fiquem com catarata...
As histórias e exemplos foram muitos, mas no final ele se confessou um otimista, porque disse que em 30 anos, desde a conferência ambiental de Estocolmo, o assunto que sequer era abordado hoje está aí e ninguém nega que desenvolvimento sustentável é a única saída.
Eu estava apostando nessa tal de crise para chacoalhar de forma mais profunda essas estruturas e dar um revertério no tal do desenvolvimento. Ninguém aguenta mais trabalhar tanto, fala sério... E se a gente não gasta comendo demais, gasta comprando roupa que logo não serve porque a gente tá gorda, ou em tratamento médico e psicológico, ou em academia pra combater o sedentarismo...
Infelizmente, essa para mim foi a notícia mais desanimadora do dia, que eu vi em outra palestra: a crise vai prejudicar bastante o sistema produtivo, não vai quebrar bancos, e no final do segundo semestre do ano que vem o pessoal já pode começar a pensar em trocar de Pajero. Blé...

Vergonha na cara - II

Em outra palestra, um professor da FGV-SP deu alguns dados que deviam ser matéria escolar, currículo básico da disciplina de Filosofia que o governo vai reimplementar nas escolas. Em algum dos anos, a gente poderia ter Filosofia da Cultura Brasileira e discutir o seguinte:
- Uma pesquisa perguntou para as pessoas se elas se consideravam felizes. O Brasil e a Índia são os dois únicos países pobres e com péssima distribuição de renda em que as pessoas se definem como basicamente felizes. Os demais são todos países ricos.
- O Brasil tem um nível de conservadorismo religioso comparável ao dos países muçulmanos. 85% da população acredita em deus e na justiça divina e acha impossível alguém ser ético sem acreditar em deus (!!!! - exclamações minhas).
- Em compensação, o Brasil está em 80º lugar na lista de países mais corruptos do mundo, em uma lista de 180 países monitorados pela ONG Transparency International. O professor disse 70º, mas conferi e acabou de sair uma lista nova que a gente perdeu algumas posições, felizmente. Mas aumentou o número de países pesquisados, logo pode ser que tenha ficado na mesma.
- Assim como somos tolerantes com a corrupção, também somos tolerantes com certos comportamentos sociais aparentemente incompatíveis com a nossa religiosidade. Pelo menos da boca para fora, 65% da população aceita o homossexualismo e 61% não só não vê nenhum problema em ter uma mulher no poder como até acham que são melhores. Nesse quesito, cá entre nós, acho que além de corruptos somos uns mentirosos incorrigíveis.

Vergonha na cara - I

Todo ano, há uns cinco ou seis, não sei bem, cubro esse evento, a Expo Management. É um mega congresso de administração e gestão, voltado para altos executivos. O pessoal traz os autores de todos os livros de administração, marketing, finanças e tudo o que está relacionado à área, os grandes papas. O ingresso custa fortunas e eu nunca assisti as palestras dos grandões, porque cubro as palestras paralelas. Se as palestras gringas são para os CEOs, as minhas são pros gerentes.
Mas já é um privilégio, porque sempre tem muitos professores brasileiros interessantes e alguns cases de empresas também. E se não serve muito pra usar na prática da empresa, tem sempre coisas inspiradoras.
O que tem sido mais legal de ver é que no começo o babado eram as finanças. Corte de custos, reengenharia, um monte de sistemas de gestão carésimos, cheios de siglas e tal. E desde o ano passado, o foco está mudando. Ano passado só se falou em ética e desenvolvimento sustentável. Este ano tem uma sala dedicada à saúde.
Assisti a uma palestra sobre a epidemia de problemas cardíacos que se avizinha. Os dados são estratosféricos, e a sala estava vazia. Claro que das 10, 12 pessoas, a maioria era de mulheres. Mas, como diz um outro professor que já assisti ano passado, melhor isso que nada. É um começo.
A nutricionista do Dante Pazzanese deu dados interessantes:
- Nos países em desenvolvimento, 45,6% das mortes são por problemas de coração.
- O índice de mortes por problemas cardíacos está aumentando nas mulheres e diminuindo nos homens.
- Quando uma mulher chega ao hospital com dores típicas de sintoma de problema de coração, em geral é atendida como se estivesse tendo um chilique (a mulher disse isso de verdade).
- Se todo mundo seguisse as medidas preventivas que a gente já sabe - parar de fumar, fazer uma atividade física regular (basta caminhar 30 minutos, três vezes por semana), comer mais verduras e frutas e diminuir a barriga são os básicos - a mortalidade cairia 90%.
Comentei com ela que agora a gordura trans parece ter sido banida de todos os alimentos industrializados, como num passe de mágica, e que as coisas que se dizem mais saudáveis, como aquele embuste da linha Vitale de caldos, têm quantidades astronômicas de sódio. Ela disse que é isso mesmo, o grande problema são as comidas industrializadas.
Nenhuma novidade, certo? Não vou dizer que já estou 100% adaptada, mas tô caminhando...

Filhas de Hera

São poucas as mães que conheço, de filhas da minha geração, que entendem os filhos, e principalmente as filhas, como seres esssencialmente únicos, e não como membros fantasma, aqueles membros amputados dos quais ainda se sente como se fossem parte do corpo. Mesmo que sejam "estudadas", separadas, viajadas. Não é privilégio das nossas mães donas-de-casa, que pararam de trabalhar no dia que receberam o resultado do exame de gravidez, porque não ganhariam o suficiente para pagar quem ficasse com os filhos.
A maioria das mães de amigas minhas sofre desse deslocamento, dessa falta de empatia. Projetam nas filhas uma continuidade de sua forma de agir e ser no mundo, assim como suas próprias mães o fizeram. Conto nos dedos as mulheres na faixa dos 60 anos que admiram o ser humano que suas filhas se tornaram, independente de suas realizações profissionais, sociais, familiares. Somos todas um sonho feliz a qual se despertou antes da hora, de um susto, uma promessa não-cumprida, um espelho quebrado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Redes

Estou aqui fazendo várias coisas novas no trabalho, e por isso nem tenho muita vontade de escrever no blog. Estou até bancando a roteirista e isso está me deixando muito feliz. O mais divertido é que você começa a criar uma história e vai se lembrando de coisas por que passou, de desenhos que assistiu, traz de volta as lembranças mais prosaicas e acaba enfiando um monte de coisas nos tais dos roteiros.
Ontem foi assim, e eu estava agradecendo pelas minhas sinapses, pensando no quanto é bom ter os neurônios funcionando bem, acho que dava até pra ouvir a passagem da corrente elétrica, bzzz, bzzz, deve ser assim.
Voltei pra casa tardíssimo, dia longo de trabalho, e no banho comecei a pensar na viagem que vamos fazer de reveillon, para Belém do Pará. Em meio aos preparativos, surge um amigo de uma amiga, solícito, que está dando dicas preciosas. São assim as amizades, sinapses da vida real, condução de energia. Quando você menos espera, reencontra alguém, surge outro ser do céu para te ajudar.
É mesmo uma rede de impulsos elétricos e quando se mantém as conexões, tudo funciona.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Para todos aqueles cuja mãe ainda corta o bife

Overboard
Ingrid Michaelson (ela não é fofa?)

I could write my name by the age of three
and I don't need anyone to cut my meat for me.
I'm a big girl now, see my big girl shoes.
It'll take more than just a breeze to make me

Fall over, fall over, fall overboard, overboard.
Fall overboard just so you can catch me.

But as strong as I seem to think I am my distressing damsel,
She comes out at night when the moon's filled up and your eyes are
bright, then I think I simply aught to

Fall over, fall over, fall overboard, overboard.
Fall overboard just so you can catch me.
You can catch me.

I watch the ships go sailing by
I play the girl, will you play the guy?
And I never thought I'd be the type
to fall, to fall, to fall, to fall to fall.

To fall over, fall over, fall overboard, overboard.
Fall overboard just so you can catch me.
You can catch me, you can catch me, you can catch-

I watch the ships go sailing by, I be your girl will
you be my guy.
And I never thought I'd be the type to fall, to fall.

To fall, to fall, to fall...

To fall over, fall over, fall overboard, overboard.
Fall overboard just so you can catch me.
You can catch me, you can catch me.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Da genialidade urbanística

Tem gente que decide aterrar uma várzea e faz o Aterro do Flamengo. E tem gente que faz a Vila Olímpia.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Depois do inferno astral

Faz séculos que não escrevo, porque muitas coisas aconteceram, mudamos de escritório em pleno inferno astral, mercúrio está retrógrado (deu vírus nos PCs), mas nada de mais, só falta de assunto mesmo.
Mas hoje não poderia deixar de prestar uma homenagem à empresa que eu gostaria de ter fundado: Despair Inc. (www.despair.com). Acabei de descobrir o site deles e os caras têm os acessórios de desmotivação empresarial mais geniais do planeta. Os caras são estraga-prazeres num nível que me faz sentir uma pobre menina ingênua. Adoro!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Férias

Um amigo me ligou e eu disse:
— Vou tirar dois dias de férias, volto na segunda.
— Dois dias? Pra quê? Pra arrumar o armário?
Na verdade são quatro, dois úteis mais um fim de semana, o que já é bem raro. Tá ótemo!
Tô no Rio, o tempo tá incrível, adoro Ipanema, comprei uma camiseta para a minha afilhada dizendo:
"Ovelha rosa da família".
Essa menina vai ficar insuportável...

sábado, 6 de setembro de 2008

Feira livre

Tem coisas que a gente não dá, não empresta, não troca. Eu queria doar histórias. Histórias mal contadas. Histórias batidas. Histórias repetidas. Vai querer?

When I'm 66

Uma casa,
Um quintal.
Um cachorro.
Jovens amigos.
Velhos amigos.
Novos amigos.
Antigos amigos.
Chá com bolinhos.
Gadgets.
Cabelo crespo e branco. Ou roxo.
Histórias.
Processos.
Liberdade.
Tempo.

sábado, 23 de agosto de 2008

Mobilização juvenil - 2

O Festival de Curtas tá rolando e eu, como nos últimos oito ou nove anos, fiz o catálogo e participo do projeto Crítica Curta, uma oficina de críticas cinematográficas coordenada pelo crítico Sergio Rizzo com os alunos de várias faculdades de audiovisual e jornalismo. Acabei de entrar no blog dos nossos "veteranos" e, ai, que orgulho. Eles estão cada ano mais afiados. Vale a pena dar uma olhada e, claro, ir ao Festival, que está uma delícia.

Mobilização juvenil - 1

Quem disse que a juventude de hoje é alienada e não luta por seus direitos? Hoje à tarde estava voltando da Vila Mariana e passei na Paulista.
Um grupo enorme de jovens vinha calçada afora, escoltado pela polícia, brandindo bandeiras e faixas. Todo mundo parecia uniformizado, e vinham gritando e rindo. Reparei nos cartazes. Tinha um dizendo: "Devolva nosso sorriso". A maioria estava escrita em espanhol. Demorou um pouco para cair a ficha, mas então me dei conta. A galera estava protestando contra o fim da banda Rebelde. Não é incrível?
Minha primeira reação, lógico, foi de escárnio e maldizer. Afinal, alguém já ouviu esse lixo musical mexicano? Depois, sei lá. Deixa eles... Acho que não teria feito isso pelo Menudo, de quem fui fã, mas quem sabe?
Lembrei outro dia, depois de ler um post do LLL sobre como as pessoas falam que os jovens não conhecem nada da época anterior, mas também não conhecem nada sobre a geração anterior à sua, de que eu assistia televisão compulsivamente na infância. Antes de saber ler, era tudo o que eu fazia. E naquele tempo não tinha nenhum desses canais especialmente feitos para crianças.
Quando passou a novela Saramandaia, às 10 da noite, eu tinha cinco anos. Meus pais não gostavam que eu assistisse, mas mesmo assim me lembro de várias cenas. É isso aí, deve ter sido divertido e quem estava lá vai se lembrar pra sempre. Então deixa eles...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem você pensa que é?

* O que você quer parecer quando crescer?
* Você é o seu trabalho?
* Alegria traz felicidade?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Humm, sopa...

Apesar de todo o meu mafaldismo, eu adoro sopa.
Estava lendo o blog da Neide e me lembrei disso, e de algumas invenções recentes. Semana passada cozinhei batata, mandioquinha e cenoura nas minhas novas panelas de inox com fundo de cobre, depois bati no meu novo liquidificador com 600w de potência, voltei para a panela com mais um tanto de alho-poró em rodelinhas e deixei lá cozinhando mais um tanto. Pra temperar, só um pouquinho de sal. Ficou bem bom.
Ainda estou testando meus novos gadgets culinários, fiz investimentos pesados recentemente. O resultado tem sido ótimo. A caneca de inox é perfeita para fazer ovos quentes. Dois minutos depois de ferver, o ovo está no ponto que eu gosto: clara cozida e gema mole, mas espessa.
Mas não dá pra deixar a comida lá cozinhando e esquecer da vida, porque pega muito fácil no fundo. Tem que ficar de olho, mexendo sempre. Tudo fica pronto mais rápido, é incrível a economia de gás e de energia.
Ainda me falta uma panela de ferro ou de barro pra fazer as sopas da Sonia Hirsch, que pedem horas e horas de fogo baixíssimo. Como uma de aveia com mandioquinha que só fica boa mesmo depois de três horas cozinhando devagar e sempre. Improvisava usando uma frigideira de ferro embaixo da panela comum. Agora, com as panelas novas, não sei se vai funcionar...

sábado, 16 de agosto de 2008

Hoje

Um dia bonito de sábado, o ser humano acorda um pouco feliz porque sonhou que alguém a ama. Vai ainda sobre os eflúvios do sonho para a depilação. Parte para o primeiro compromisso de trabalho alguns gramas mais leve, almoça no McDonald's e sai correndo para ir ao cabeleireiro depois de três meses desde a última vez.
Tem seu cabelo cortado e enquanto absorve o impacto de talvez ter sido um pouco demais, acaba tendo que ir para o cliente levar um material. Lá se encontra com um amigo que sofre de sinceridade patológica. Ele repara no corte (que o ser em questão ainda não decidiu se ficou bom), e cumprimenta a vítima com um comentário sobre a orientação homossexual das mulheres que costumam usar esse corte.
Todos estão deprimidos e você percebe que mais uma vez todos os seus esforços em prol desse cliente, que este ano você considerava realmente incríveis, são vistos pelo conjunto dos envolvidos como um resultado meia-boca.
Aí o ser vivente se deixa levar até o escritório, às seis da tarde, para terminar o livro de um cliente que passou os últimos seis meses invadindo sua sala sem pedir licença. São 11 da noite, é sábado, meu tio comemora 80 anos com toda a família (menos eu e minha irmã, que temos a mesma doença) e em casa tem uma sopa de anteontem me esperando.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Tão mané...

Tão, mas tão mané, que apaguei a lista de blogs dos amigos. Blé... Agora não lembro mais todos que tinha, quem se sentir inferiorizado pode me xingar, mas não deixe de mandar o link.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Índia é aqui

Na hora que escrevi o post anterior, esqueci de contar mais um dos casos bizarros que só São Paulo oferece a você. Dedicado à Suzete, lá em Curitiba.
Estava eu no Kalunga da Av. Paulista, comprando coisa pro escritório, lógico. Discretamente, um sujeito me estica um papel. Era um cara bem apessoado, de cabelo preso num rabinho de cavalo, camiseta por dentro da calça. Eis o que dizia o papel:
Aos três anos, tive a língua cortada por um tio bêbado. Ouço mas não falo. Preciso de ajuda para comprar uma máquina de fazer pipoca e trabalhar como pipoqueiro.
Fiquei totalmente pêssega, devolvi o papel, sem saber o que fazer. Ao perceber que eu não contribuiria para a realização do sonho da pipoqueira própria, ele fez aquilo. Abriu e boca e apontou com o dedo. Eu não olhei muito, mas assim, de relance, não vi nenhuma língua. Ai.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

As pessoa é comédia

Observar o ser humano é realmente algo que me diverte.
*
A moça da farmácia tenta me explicar que justamente o produto que não tem é o mais barato. Eu pergunto: Mas qual a diferença desse para o outro? A moça: Olha, é igual, sendo outro, sabe?
*
Hoje, Avenida Paulista, três da tarde. Eu no carro, avisto o motoboy ao lado. Em cima do baú, várias caveirinhas. Na lateral, um crânio de bicho (cachorro?) amarrado com uma corrente. Weirdo. O motoqueiro das trevas. Ele se afasta e eu consigo visualizar toda a composição. São vários crânios de bicho adornando o baú, tipo um colar. Embaixo, no pára-choque, um adesivo: Sou da Paz. Ah, então tá, né?

terça-feira, 29 de julho de 2008

A lei da atração

Vinha vindo a pé pela Paulista, pensando na velha que eu quero ser daqui a 30 anos. Não sei se vou deixar o cabelo grandão e pintar com henna, pra parecer aquelas professoras da USP, ou se deixo ele ficar todo branco. Acho lindo.
Parei pra tomar um café do lado do Banco Real. Na minha frente na fila, uma mulher de uns 50 anos, cabelos rosa-choque, jaqueta jeans pintada a mão com flores. Logo começamos a conversar, ela me contou assim, sem mais, que a velha que ela quer ser é uma senhora que descobriu, depois dos 60 anos, que gosta de tingir lãs das cores mais berrantes. Arrumou uma forma de sobrevivência e um novo talento. E ela compra as lãs para tricotar cachecóis.
Minha nova amiga é ilustradora, pegou meu telefone. Estou voltando a ser pára-raio de loucos do bem. Acho que é um bom sinal.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Só pra lembrar

Eu ainda quero ser abduzida. Gosto de ficção científica mas não é nenhuma curiosidade científica pelos outros planetas. É a mesma vontade de sumir sem precisar me mobilizar pra isso. Se acontecer, amigos, podem ficar tranqüilos. Não precisam nem devolver meus tupperwares.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Todo dia ele faz tudo sempre igual


É, meu cabelo. Todo dia saio de casa achando que domei a fera, mas não tem jeito. Quando chego no elevador do escritório e me vejo no espelho, tá lá. Igualzinho meu avatar dos Simpsons.

Terça-feira, dia de tomar ônibus

Terça-feira é rodízio, dia que eu faço de tudo pra deixar o carro em casa e ir trabalhar de condução. Sempre levo um livro, claro, mas agora não consigo mais ler em qualquer lugar. Antes viajava de carro pra qualquer cidade de serra lendo o caminho inteiro, enquanto minha mãe e minha irmã passavam mal sem ler, e agora desenvolvi essa limitação. Não consigo mais ler quando sento no banco do metrô de costas. O remédio é olhar as pessoas, né?

***

Por que as pessoas usam peruca? E por que o tom sempre puxa para o acaju? Por que, meu deus, por quê??! Em uma edição do Queer Eye for the Straight Guy ensinou-se um moço a raspar careca, depois de ele ter torrado a peruca na churrasqueira, em uma despedida ritual. Muito instrutivo esse programa.

***

Mãe e filha. A mãe se senta ao meu lado, a filha pula para o banco reservado. A mãe na hora puxa a menina para seu colo. "Não pode sentar aí. Esse banco é só praquelas pessoas que estão ali no desenho." A menina tem uns cinco anos. Dá uma resmungada, mas olha para os desenhos. "Tá vendo? O que que tem ali?" A menina enrola, e começa: "Um doente, uma grávida, uma mãe com bebê, um velhinho." Então, diz a mãe, você é alguma dessas pessoas? "Não..." "Então não pode sentar aí." Civilidade existe.

***

Já reparou que em todos os vagões existe pelo menos uma pessoa lendo um livro da Zíbia? Na próxima encarnação também quero falar com pessoas mortas, que isso dá uma grana.

***

O tecido top-one do metrô se chama "oxfórrrde". É assim que as vendedoras das lojas de roupas para moças que trabalham em escritórios pronunciam, com força no R e E no final. Sabe aquele tecido sintético típico das calças e paletozinhos de moças que trabalham em escritórios? Quente no calor, frio no inverno e meio brilhozinho? É esse. Marca celulite que é uma beleza. Inda mais em calça verde água.

***

Na volta tem mais.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Por falar em natureza selvagem

A história do peixe, na verdade, tem a ver com o filme "Na natureza selvagem", do Sean Penn, que assisti ontem. A história não é nova: um cara (que hoje teria praticamente a minha idade) acha que a sociedade é cruel, que o dinheiro corrompe, que os pais são hipócritas, e decide sair por aí, vivendo como dá, e voltando à natureza. Medo desses filmes. Costumam ficar em um dos extremos. Ou louvam a volta aos primórdios, corroborando a tese do fugitivo, ou dão uma lição de moral de deixar qualquer um frustrado.
Esse não. Até por ser uma história real. Pra começar, o personagem não é estereotipado. Não é um playboyzinho frustrado nem um hipongo podicrê. É um cara cheio de inquietações e dúvidas, com personalidade e empatia. Claro que o filme deve ter selecionado os personagens mais emblemáticos que ele encontrou pelo caminho, mas também são personagens profundos, com nuances.
É lindo de ver o momento em que ele tem sua epifania, nada épica ou grandiloquente. É simples e pessoal como deve ser, com recursos cinematográficos contidos. Enfim, mais um filme obrigatório, especialmente para quem não está em paz com o mundo, mas gostaria de estar. É justamente aí que a minha tilápia entra nessa história, mas não quero bancar a spoiler então não vou falar sobre isso.
Mas vem cá, estou sendo muito Poliana-moça ou o mundo está ficando ligeiramente menos maniqueísta?

O peixe não é mais aquele

Fiz tudo certinho. Descongelei o peixe, temperei com limão siciliano, pimenta do reino e um tantinho de tomilho. Preparei o creme de espinafre com um pouquinho de noz moscada ralada na hora. Coloquei o peixe entre camadas do creme e levei ao forno. Tudo ficou uma delícia. O único problema é que o peixe estava com gosto de terra.
Não é a primeira vez que isso acontece. Parece que tem a ver com criação em cativeiro. Uma vez um amigo do meu pai foi pescar no Pantanal e nos trouxe um pacu. Acho que é o peixe de rio mais gostoso que tem. É bem gorduroso, então se você rechear com uma farofa de pão ela frita lá dentro e fica crocante. Sensacional. Só que o pacu era de pesqueiro e tinha um baita gosto de terra. Alguém, na época, explicou que o peixe fica estressado e come terra. Outra pessoa disse que é por causa de uma alga que prolifera em água meio parada.
Pesquisei sobre isso e parece que o Sebrae já está ensinando uma técnica para evitar isso em peixes de criação. Claro que seria muito mais legal se a gente pudesse comer tudo do jeito mais natural possível, mas era uma vez um Pantanal se todo mundo tiver de se alimentar de peixe de água corrente.
A simples existência do homem cria essa dinâmica. Toda descoberta e toda técnica detonam alguma coisa, aí precisa inventar uma coisa pra corrigir aquela. Mas não adianta querer voltar à natureza selvagem. Não tem mais volta.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A cama e eu

A cama e eu nunca fomos uma entidade. Não que eu não goste de dormir, mas eu durmo porque é preciso. Sempre dormi o suficiente e não gosto de ficar na cama por ficar. Não que no inverno eu não tivesse preguiça de levantar às 6h pra ir na escola. Mas dormir pra mim é o que é comer pra muita gente. Uma necessidade, não um prazer.
Daí você começa a não ter vontade alguma de sair da cama, mas seu corpo não está acostumado. Se você vai dormir às 10 da noite, vai acordar às 4, é batata. E ficar fritando até cochilar de novo e perder a hora.
Ontem deitei no lençol limpinho às 11h. A faxineira tinha trocado o lençol e deixado tudo arrumadinho. Entrei sem bagunçar a cama, olhando pra cima, meio múmia. Virei de lado pra fingir que não estava morta.

domingo, 29 de junho de 2008

I told you that I was trouble

... já diria a Amy. Eu costumo avisar logo de cara. Minha irmã me disse uma vez que eu falo certas coisas porque quero chocar as pessoas. O lance é que eu faço questão de não vender gato por lebre. Se alguém me pergunta quantos anos eu tenho, eu digo. Se alguém me pergunta se acredito em deus, eu cito o Alex Castro (é enorme, eu não concordo com absolutamente tudo, também não tenho conhecimento filosófico pra contrapor, mas basicamente ele fala tudo o que penso no item Sou ateu porque preciso).
Gosto de ser quem sou e de pensar o que penso, e mesmo assim sei que qualquer coisa que alguém me disser pode me fazer mudar de idéia. Então por que teria de me esconder? Se as pessoas me perguntam alguma coisa e não estão preparadas para as respostas, tough.
A filosofia de botequim básica é resultado do fato de ser domingo à noite, e eu estar aqui assistindo essa comedinha romântica já vista, Hitch, com o Will Smith. É muito engraçado, porque ele é consultor sentimental e tem um passado de mané. Eu sempre adoro essas bobagens, mas com o tempo você vai vendo porque definitivamente não se encaixa nelas. No meu caso, é justamente porque assim que eu conheço alguém que me interessa, eu deixo isso claro, assim como as outras coisas polêmicas. E me parece que segundo as comédias românticas americanas e a revista Nova, é preciso fazer um charme e dar uma canseira no cara.
A experiência de algumas amigas, infelizmente, corrobora o jeito Nova de ser. Acho engraçado. Parece que é uma coisa de mulher mesmo, achar sempre que o cara tá querendo se aproveitar e tal. E o cara achar que tem de dar um duro pra conquistar a pessoa. Comigo não adianta. Se estou a fim, estou. E se não estou, talvez possa ficar. Ou seja, além de ser sincera e de costumar dar uma chance pras pessoas, morreria de fome se precisasse viver de teatro. O que me resta é pensar é que, ora, se o sujeito realmente quiser alguém que se faça de difícil, que vá cantar em outra freguesia.

sábado, 28 de junho de 2008

Música no banho, uma necessidade

Depois de muito tempo, mais de um ano, consegui novamente ouvir música enquanto tomava banho. A gente se presta a cada coisa nessa vida que, sinceramente, não sei como é possível. Mais de um ano sem pular e dançar no banheiro, minha gente. Isso não é coisa que se faça.
Tudo porque acabei dando o som que morava no meu banheiro para a minha vizinha, que não tinha nenhum. Isso foi logo que a Laurence veio morar comigo. De um lado, alguém não ter um aparelho reprodutor de música é um problema muito grave; de outro minha frenchmate acordava tarde, então não dava pra ouvir música logo cedo.
Agora consegui acoplar meu MP3 player ching-ling numas caixinhas de som de computador e funcionou super. Pude comprovar em volume bem mais alto que eu realmente gostei do disco da Scarlett Johansson cantando Tom Waits. É sampleado? É. A voz dela é pobrinha? É. Mas eu gostei, falô? É sexy e divertido. Obrigada, Faber, por compartilhar seu iPod de verdade comigo!

Novas fábulas

Fui ontem assistir Wall-E na estréia. Estava louca para ver, mas quase mudei de idéia porque o filme praticamente não entrou com cópias legendadas. Fui mesmo assim e posso dizer que são tão poucos diálogos que realmente não faz mal.
Já estou bem melhor da minha crise ultra-romântica, então não me emocionei com o romance de dois robôs como aconteceria em outros tempos. O que me emocionou de verdade foi saber que havia gente por trás de tudo aquilo. Muita gente execra a tecnologia ou acha que esses filmes são coisas pra criança. São também, ainda bem. Mas são feitos por pessoas e eu gostaria muito de conhecer cada um daqueles nomes dos créditos. Adoro animação porque são mundos novos e personagens improváveis, totalmente criados da cabeça de alguém, como só há paralelo na literatura.
Pra mim, além de toda a lição de humanidade e meio ambiente do filme, duas coisas foram muito especiais. A primeira é que os dois robôs protagonistas vão parar no manicômio dos robôs. E se existe um momento em que todos aqueles robôs são humanos é quando estão ali, enjauladinhos, descontrolados e cheios de tiques. E é com essa legião de robôs out-of-order que começa a revolução.
A segunda coisa foram os créditos finais. Em geral aí já estou chorando, mas só comecei quando entendi que ali estava o final do filme. Não sei se o que vou dizer é spoiler, não vou dar detalhes, mas muito simplesmente é a história humana, expressa nas principais fases da História da Arte.

Profecia

Outro dia, estava tomando banho e uma lagartixa nenê subiu na minha perna. Nunca tinha ouvido falar ou visto uma lagartixa chegar tão perto de gente, inda mais embaixo dágua. No dia seguinte, deixei meu iBook aberto e na cozinha e levei pro quarto pra ver um filme que estava gravado. Quando abri, tinha uma barata querendo morar ali. Lembrei da Cássia e achei que está na hora de um sapo pular na minha banheira.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Um dia eu

Já faz vários anos que decidi o que vou pedir se me aparecer um gênio da lâmpada. Tenho uma lista de pessoas para quem desejaria que o gênio as transformasse em mim por um dia. Um dia só. Com todos os pepinos que eu tenho pra resolver. E, claro, com todas as preocupações que eu tenho também. E as crises existenciais. Cada vez que alguém banca o sem-noção, porque não tem o que fazer e acha que eu também não tenho, incluo essa pessoa na lista do gênio. A lista só faz aumentar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Diálogos possíveis*

Outro dia um amigo me perguntou se eu, que tenho tantos amigos cineastas, não tenho vontade de fazer um filme. Não tenho não.
Ficção não rola. Nunca tive amigos imaginários. Quando começo a pensar num personagem, só consigo me lembrar de histórias reais. Tem umas tão boas que parece que nada que possa sair da minha imaginação vá fazer frente. Também acho que vou acabar sendo meio maniqueísta, careta. Não, não rola.
Já no caso do documentário, o drama é outro. Pensa bem. É você, uma câmera, e a vida de uma pessoa, ou de várias. É uma intimidade enorme. A câmera vê além do olho. A câmera tem zoom. A câmera não tem contato visual.
Uma entrevista já é um exercício de humanidade, de entrega. Tenho a impressão de que se eu não falasse de mim, também não ouviria muito. É uma troca. Com uma câmera no meio, cadê?
Assisti três documentários suecos feitos por alunos, na seqüência. Um é um pouco barroco, mas o entrevistado é o roteirista Tonino Guerra, que participou da concepção do filme. Ele não conta toda a vida, só conta de sua paixão por pincéis usados, o que rende lindas histórias. A liguagem é careta, mas o diálogo é pleno.
Outro tem um personagem interessantíssimo, mas o filme não flui. E não flui porque a entrevista não chega lá. Mas o interesse persiste, então dá pra assistir. O terceiro é um exemplar do que mais me incomoda em documentários: a visão do estrangeiro sobre o exótico terceiro-mundista. É o formato que mais fascina. Mas a falta de compreensão do outro fica sempre por um fio. A câmera invade.
As pessoas assistem Big Brother. Eu não consigo. Não posso correr esse risco. Não, acho que não vou fazer filmes.

* A expressão é da minha professora de redação jornalística, Cremilda Medina, que escreveu um livrinho chamado "Entrevista, o diálogo possível".

quarta-feira, 4 de junho de 2008

... mas também da palavra

À tarde cobri outro evento, sobre produção audiovisual, outro dos meus temas. Gente amiga pra todos os lados, sempre um prazer. Comprei livro novo da Rosa Montero, este sobre mulheres incríveis. Resolvi largar o carro e vir de ônibus, só pra poder continuar lendo. Hoje não vou conseguir cumprir minha meta de curtas. Que me desculpem os escandinavos, alemães, austríacos, suíços e italianos que repousam ao lado da TV, mas hoje vou pra cama com a espanhola.

Nem só de pão vive o homem

Uma das melhores coisas que existem é bater de frente com a nossa própria ignorância. Por mais que a gente seja atento e tente estar sempre preparado, às vezes a rotina passa a perna na gente. Aí temos a chance de ter uma surpresa boa, quando parece que a vida está sendo sempre mais do mesmo, ou quando a gente tá achando que sabe tudo. Hoje foi assim.
Me chamaram pra cobrir um evento e a semana estava tão louca que não consegui nem pesquisar quem era o palestrante. Esses eventos são sempre classe A, com os mega-master-plus-top-fodidos de administração e marketing. Não que esse seja um dos meus assuntos favoritos, mas os caras são tão bons e trazem tantos insights que sempre saio cheia de (mais) idéias.
Qual não foi minha surpresa hoje quando o palestrante era ninguém menos do que Chris Anderson, editor da Wired e autor da teoria da cauda longa, um termo que está na boca do povo (pelo menos na desse povo).
Tinha justamente comprado a Wired deste mês, olhado pra cara dela e dito, puta que pariu, essa é uma das melhores revistas do mundo. Os caras conseguem trazer uma matéria sensacional sobre ressonância magnética funcional, ao lado de outra sobre os efeitos especiais dos filmes do Guillermo del Toro (dois temas sobre os quais escrevo há 15 anos), um novo game do Spielberg e uma capa sobre os mitos da sustentabilidade e a necessidade de pensar grande sobre isso. São provocadores e cínicos, sem serem escrotos.
Bom, eu sou uma geek light, e realmente gosto de ler sobre gadgets, neurociência, sustentabilidade (sem fanatismo) e até química (se o Renato Russo tivesse lido Oliver Sacks ele jamais teria feito aquela música).
Anderson falou sobre o primeiro livro dele, justamente esse da cauda longa (muito basicamente, ele diz que a Internet trouxe espaço para a segmentação e os produtos de nicho, ao contrário dos produtos de massa do século 20 - parece uma coisa velha, mas foi o cara que disse isso, em 2004). E também sobre o próximo, que sai este ano e chama Free. Para ele, vários aspectos da Internet tendem a se tornar grátis, como aconteceu com o e-mail. E isso vai gerar outras oportunidades de negócio.
Aí um cara da gravadora Trama, para ser engraçado, perguntou se o livro dele ia ser grátis, provocando por causa da polêmica de pirataria de músicas. "Claro", Anderson respondeu. "Vai estar disponível na Internet e para download. Vai ter uma versão impressa patrocinada, que vai ser distribuída grátis com anúncio na capa. E uma versão capa dura, sem propaganda, à venda por U$ 29. Vou dar o livro de graça porque esse não é meu negócio. Eu não vendo livros. Mas graças às idéias que publico nos livros é que estou aqui, dando palestras, e com isso ganho dinheiro. Quando eu era garoto também tinha banda, e não era para ganhar dinheiro. Era uma diversão e uma forma de me aproximar das garotas. Ler meu livro não é a mesma coisa de assistir uma palestra, e ver um show ao vivo é uma experiência muito melhor do que ouvir música. É aí que se ganha dinheiro."
Tive que agradecer o cliente pela oportunidade. Não é todo dia que a gente ganha dinheiro pra ouvir alguém falar coisas legais. Pois esta é, cada vez mais, minha maneira preferida de ganhar dinheiro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

There is a hole in my heart for so long

A imagem que me vem à cabeça de vez em quando é a de um buracão, bem no meio do peito, varando o coração. Um buraco asséptico, nada ensanguentado, que eu passo mal com entranhas.
Aí o buraco está lá e fico pensando em como preencher todo aquele espaço, porque dói. Uma pessoa não é suficiente, nem todos os amigos do mundo. A música faz eco, às vezes parece que completa, mas é só impressão.
Aí eu lembro de um game japonês genial, o mais insólito que já vi. Chama Katamari Damacy. A história é assim: o rei ficou bêbado e destruiu várias estrelas. Aí ele manda o filho, que é um bonequinho minúsculo, buscar coisas pra fazer novas estrelas. O hominho chega nos planetas e começa a empurrar as coisas. Elas vão aderindo umas nas outras e formando esferas enormes, de coisas grudadas. Conforme a bola aumenta, ela gruda coisas maiores. Isso inclui gatos e depois golfinhos e até elefantes, que ficam se debatendo ali no meio. Até que a bola engole tudo do planeta e pode virar a nova estrela. A música é ótima, o rei é hilário e o jogo é totalmente nonsense.
Aí cai a ficha que também não adianta ficar juntando coisas, porque não vai caber uma bola cheia de coisas grudadas no buraco. A imagem é justamente essa: o buraco com uma bola dessas meio pra fora, não cabendo, só sendo engraçada, com guarda-sóis, gatos e cones de segurança.
A conclusão que se chega é que precisa crescer carne ali dentro, alguma coisa de dentro pra fora. Às vezes sinto as células se multiplicando, mitoses e meioses, e parece que vai. Devagar, mas vai.

Me dá um delírio aê

Eu tenho enxaqueca, mas nunca tive aura.
Já experimentei cositas alucinógenas, mas nunca tive visões.
Tomei porres, não muitos, mas nunca tive amnésia.
Fui ver o céu em lugares místicos, não vi sequer uma estrela cadente, quem dirá um ovni.
Nunca tive epifanias religiosas, o céu nunca se abriu.
Pessoas mortas só vi no velório. E elas nunca falaram comigo. Não depois de mortas.
Talvez falte uma pitada de sobrenatural na minha existência.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

TPM, uma faca de dois legumes

Até os 30 anos, eu sinceramente achava que TPM era uma invenção da revista Nova, um charme de mulher que queria variar a desculpa quando não estava a fim, ou que buscava uma justificativa biológica para seus pitís. Eu também não tinha cólica e achava isso uma grande frescura. Até que um dia tive e me dei conta de que já tinha sentido aquilo antes, mais fraquinho, e duh! aquilo era cólica. Depois dos 30, também descobri que TPM existe, é mala, faz a gente chorar ou ficar irritada, não é nem um pouco legal.
Hoje todo mundo também sabe que existe, mas o que era pra ser uma explicação racional e lógica para muitos problemas emocionais virou (mais) uma forma de desautorizar a mulher. A gente, é claro, é parcialmente culpada. Porque se a qualquer momento lançamos mão da TPM para justificar o que dizemos ou fazemos, estamos autorizando os outros a jogar isso na nossa cara. O resultado é que hoje não se pode mais ficar puta, porque já vem alguém dizer que você está na TPM. Antes se a mulher tava de mal humor, era mal comida. Hoje tá de TPM.
Vários problemas de saúde que antes tinham nomes genéricos se tornaram diagnósticos. Antes os idosos ficavam esclerosados. Hoje têm Alzheimer e uma série de doenças neurológicas diferentes. Mas enquanto isso não signfica um tratamento eficiente, são só termos médicos que caíram na boca do povo. Muitas vezes, são só especulações e portas abertas para o preconceito.
Por isso estou dando início à campanha "TPM não existe, é uma invenção de Nova". Acho que temos de desautorizar novamente a TPM para reinventar nossa fúria de uma maneira mais equilibrada.

domingo, 1 de junho de 2008

Vai encarar?

As pessoas estão começando a dizer as coisas na minha cara e, devo confessar, estou achando ótimo. Primeiro foi meu pai que, no amigo secreto do Natal, começou assim: "A minha amiga secreta é uma pessoa que reclama muito. Ela nunca está satisfeita com nada". Eu, que já estava me achando tão melhor, caí do cavalo. Descobri na hora. As outras pessoas foram mais discretas, mas eu logo saquei.
Agora mais dois amigos falaram isso de uma forma bem direta, eu diria. Foi isso que achei ótimo, porque tem gente que bufa mas nunca fala nada e deixar escapar essas coisas é bom, tira o ódeo do coração. O que achei melhor ainda é que não só não fiz nada pra tentar reverter a impressão, como pensei: "Bom, se você acha isso, problema seu". Não que eu realmente não saiba que estou reclamando horrores da vida, acima de qualquer recorde anterior. Mas é isso o que temos a oferecer no momento. Não gostou, pega eu.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Não vou me adaptar

Que me desculpem os otimistas de plantão, mas não estou gostando de tanto abaixar a cabeça. Vamos dizer que seja só uma fase minha. O país está ótimo; o governo que a gente quis e conseguiu eleger, que vimos tomar posse chorando de emoção, não é corrupto; a profissão que eu escolhi é digna e realmente fundamental para o mundo (o que seria de nós sem a cobertura incrível do caso Isabella, não é, minha gente?).
A impressão que eu tenho é que as pessoas não querem ouvir falar do que está errado para não terem de tomar alguma atitude a respeito. Eu sei porque também já estive em fases mais otimistas, ou até em momentos mais desesperados, em que sabia não ter energia pra tomar nenhuma atitude. Então preferia que não viessem me encher a cabeça com reclamações. Tudo bem. Vou tentar poupar essas pessoas de ouvirem minhas queixas, já sei que estou pregando no deserto.
Mas é que se alguma coisa está errada, não consigo dizer: "Ah, é assim mesmo, a regra era essa". Se a regra está errada, mude-se a regra, porra. Se a lógica é torta, sou eu que tenho que me adaptar? Ai, tô fora.

terça-feira, 27 de maio de 2008

De pensar morreu um burro

Já dizia a Emília. Ando pensando demais. Mal escrevi o post anterior e já me arrependi. Tá certo que nem disse o que para mim é um ogro. Até porque minha concepção de ogro deve ser meio excêntrica. Deve ser só o fato de eu finalmente estar me enquadrando. Estou sucumbindo ao pensamento corrente de "antes só do que mal acompanhada". Deve ser isso. Ou não.

Contos de fadas ou Glioma maligno

Eu brigo com muita coisa e tento brigar também com meus preconceitos. Mas não sou perfeita. Tem coisas que me intrigam. Outro dia estava pensando aqui comigo: será que a princesa Fiona realmente se apaixonou pelo Shrek? Tudo bem, ele é um cara boa praça, muito mais legal do que o príncipe para quem ela estava prometida (nem vou comentar a estatura do sujeito, para não correr o risco de ser tachada de preconceituosa de novo). Mas veja, o cara não deixou de ser ogro. Divertido, engraçado, mas ogro. E ela, tão descolada...
Apesar de toda a irreverência do filme, essa paixonite de mocinha pelo herói que a salvou, sei lá... E ainda tem o agravante de ela virar ogra para sempre, o que pode parecer simpático mas vai contra a sua natureza. Para mim, ela deveria ter ficado sem feitiço e bancado a mestiçagem, mesmo que isso gerasse descendentes inférteis...
Mas ontem, no episódio de Grey's Anatomy, tive outra luz. A Meredith suspeita que o cara tenha um tumor no cérebro porque ele era rico e lindo e se casou com uma garçonete meia-sola depois de 10 dias de namoro. O cara está no hospital porque passou a mão num filhote de urso, o que resultou num ataque feroz da mamãe-urso, um estrago. Ele sabia que não podia, mas fez. A Meredith achou estranho e foi investigar. Descobriu que o cara tinha glioma maligno, um tumor que afeta as emoções e faz as pessoas perderem o senso de noção. A pobre da moça, então, se dá conta de que é um sintoma... Triste e cruel. Mas será que não é o caso?

O interior na Paulista

Muita gente diz que São Paulo é uma cidade fria, gigante, que engole as pessoas. Para mim, é muito pelo contrário. Passando hoje pela esquina da Brigadeiro com a Paulista, lugar que freqüento desde criança, lembrei de já ter pensado no quanto isso é mentira.
Meu pai sempre trabalhou por ali, e hoje mora bem perto dessa confluência. Ele tem conta na banca de jornal, conhece todas as meninas do café, paga fiado na padaria. Já teve conta na ótica, quando as fotos eram em papel e ele mandava os filmes para revelar. As pessoas o cumprimentam na rua. Eu também morei ali perto e foi uma das fases mais legais da minha vida.
Claro que meu pai é uma pessoa do interior, que tem facilidade para se enturmar. Mas se alguém não se enturma, não vamos culpar a cidade, né? No prédio onde tenho escritório, há um café. Todo mundo se conhece, desce junto para o café à tarde. Grupos se formam, pessoas ficam amigas e levam isso para fora de seus locais de trabalho.
Outro dia estava num bar com uns amigos e junto estava um casal que hoje mora nos Estados Unidos. Foi chegando gente, o garçom foi dando um jeito, e lá pelas tantas tinha mais de 20 pessoas numa mesa para 8. Todo mundo encostado, ombro a ombro. O cara comentou que isso nunca aconteceria nos Estados Unidos, onde uma reunião para seis pessoas é festa.
Fato é que, seja em São Paulo ou em outras cidades brasileiras, as pessoas se enturmam. Talvez a diferença seja que aqui todo mundo se conhece no trabalho. Em cidades pequenas, pode ser que seja na missa ou na praça. Em lugar de praia, na praia. Não é melhor nem pior. É só São Paulo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Banco é tudo igual

Esta é a oitava vez que vou contar essa história, sendo que as sete anteriores foram para algum funcionário do banco Itaú. Sempre achei esse banco um dos menos piores, era até que bem atendida, o sistema pela internet funciona melhor do que qualquer outro que eu conheço. Até que eu fiquei na pior e precisei deles de verdade. Aí eles viraram um banco como outro qualquer.
Tentando recuperar o crédito que os maletas tiraram da minha empresa, fui falar de novo com o gerente. Aí, como sou metida a engraçada, mandei a seguinte missiva para a criatura:

Depois de se separar do marido, a sócia (eu) teve problemas com o cartão de crédito ligado à sua conta pessoal no banco Itaú. A conta tinha sido aberta em 1996 e desde então a correntista teve seguro de automóvel, aplicações, cheque especial, cartão de crédito, PIC e tudo o mais que o banco oferece (e empurra). Nunca tinha tido nenhum problema de inadimplência. A dívida do cartão de crédito ficou aberta por pouco menos de um ano, até que a correntista foi contatada por uma empresa de cobrança, com quem começou a negociação para a quitação da dívida. A própria empresa de cobrança orientou a correntista a procurar seu gerente e iniciar uma negociação paralela com o banco, visando reduzir ao máximo o valor da dívida.
Como a conta é em uma agência-posto esquecida por Deus e pelo banco Itaú na Rua Itapeva, a cada dia uma pessoa diferente estava no atendimento. A correntista teve de explicar sua vida para cinco pessoas e cada uma fornecia uma orientação diferente. Foram mais de dez dias de negociações, com a postagem de propostas pelo sistema, e respostas do banco. Uma das pessoas chegou a citar a possibilidade de haver restrições, mas na hora de bater o martelo, o funcionário do momento afirmou que isso não aconteceria. Como a empresa tinha conta no banco também, tentou-se evitar ao máximo a colocação de restrições. Só depois de fechado o acordo é que foi informada do problema. Imediatamente, decidiu encerrar sua conta pessoal de mais de dez anos.


Agora que a gente não precisa mais deles, capaz de conseguir alguma coisa...

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Epifania musical

A primeira epifania musical de que me lembro aconteceu quando eu tinha seis anos. Tinha feito a primeira série num coleginho perto de casa, que só ia até a primeira série. O bairro não tinha quase escolas particulares, então meus pais foram atrás de outras opções, em bairros mais bem servidos do que a Cidade Dutra.
A epifania aconteceu quando cheguei ao Magno, um colégio hoje playbíssimo na Chácara Flora. Ao lado do pátio, numa sala envidraçada, meus potenciais colegas estavam tendo aula de coral. Com a professora ao piano, e as crianças, da minha idade, cantavam Olê, Olá do Chico Buarque. Era tudo o que eu queria. Não podia haver escola melhor. Ali era o meu lugar.
Passei no teste, mas a escola não cabia no bolso da minha família classe média. Escolhemos outro colégio, onde fui muito feliz, mas nunca mais esqueci a cena e aquela sensação de pertencimento.

Mais de música

Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me levou pra ver Os Saltimbancos Trapalhões, filme que aliás tem uma trilha ótima. Ele nunca gostou de Trapalhões, mas esse a gente viu duas vezes por causa da trilha. Fomos ao Cine Barão, no Centro, e na saída o Adoniran Barbosa estava encostado no balcão de um bar, de chapéu e guarda-chuva. Eu é que vi. Era um ídolo, eu cantava as músicas todas. Puxei a manga do meu pai e perguntei: "Esse não é o Adoniran?" Era. Não é demais?
Tempos depois, meu ex resolveu fazer um documentário sobre os Demônios da Garoa e tive a oportunidade de conhecer todo o grupo. As histórias são incríveis e agora os dois últimos remanescentes se foram. O filme nunca foi montado, mas o material bruto é muito bom. Tem uma seqüência impagável com o Sabotage (talvez em sua última aparição em vídeo) e seus amigos cantando Luz da Light numa favela, com um beat box sensacional. Ainda torço pra virar alguma coisa.

Música na veia

Terça-feira fui ver Chega de Saudade, adorei. Acho que a direção é ótima, os personagens são bem construídos, um verdeiro Altman da dança de salão. E me achei muito privilegiada por conhecer praticamente todas as músicas do filme, que tem desde uma versão do hit das Frenéticas, Dancing Days, cantada pela Elza Soares, até Risque (meu nome do seu caderno...), um clássico da fossa cantada pelo Jamelão.
O cinema estava quase vazio e eu e a Sil praticamente cantamos junto todas as músicas. Realmente, minha cultura musical brasileira é vasta e diversificada. Resultado de muitas noites de seresta em aniversários na família da minha mãe.

domingo, 11 de maio de 2008

Histórias de avô

Eu tinha essa avô que era realmente muito engraçado. Ele não falava muito, mas gostava de fazer umas molecagens. Dava a bala de leite puxa-puxa que minha avó fazia para o cachorro, só pra ver o bicho ficar um tempão mastigando e tentando se livrar daquilo. E tinha umas frases de efeito e umas expressões que deixam minha tia ainda fula, só de lembrar.
Quando alguém mais novo fazia alguma bobagem, ou se metia a besta, ele se referia à criatura como "você, com o umbigo cheirando a óleo". Muito antigo isso, tem a ver com o óleo que se passava no umbigo do recém-nascido. Era muito petulante.
Outra expressão era "barriga cheia, goiaba tem bicho". Ou seja, quando você coloca muita comida no prato e depois inventa uma desculpa, dizendo que a comida tá ruim. Criança é mestre de fazer isso e meu pai, reza a lenda, tinha o olho maior do que a barriga. Sempre queria o maior pedaço de doce, até que meu avô o fez comer uma goiabada inteira depois de uma cena com a minha tia. Não adiantou nada, meu pai não aprendeu a lição e ainda é bem guloso.
Mas tem uma frase que deve ter influenciado muito os netos – se estivesse vivo, meu avô só teria uma bisneta, minha afilhada Laurinha, que só veio depois da minha prima muito pensar e analisar. A frase, uma das que minha tia mais odeia, é "depois que filhos tive, nunca mais barriga enchi". Cruel.

Na alegria e na tristeza

Um dia cheio de altos e baixos, esse de ontem, mas que colocado na planilha dá um gráfico positivo.
Começou com o encontro, que está ficando cada vez mais legal. Já tentei escrever a respeito e sempre me parece que não acho palavras suficientes para resumir o que a gente conversa, então me soa leviano e apago tudo. Então é "o encontro", é importante e pronto. Saí de lá com duas coisas na cabeça, principalmente. Minha dificuldade de receber elogios – preciso agradecer uma das meninas, a Tati, que agora é minha leitora e que foi sensacional comigo. Não passou logo, viu? Entrou e ficou guardado aqui, obrigada de verdade.
Matei o espanhol com dor no coração, mas precisava almoçar e continuar falando. Levei o Marcio no Gaia, um vegetariano do jeito que tem de ser. A comida é saborosa, gourmet, o lugar é lindo, especial mesmo. Sempre vou lá almoçar sozinha quando estou em Pinheiros, porque é tão tranqüilo... Coincidência total (ou conexão?) e encontrei a Tati de novo.
Passei a semana inteira encanada com o tal do casamento que fui ontem, de uma prima próxima mas que nunca vejo. Estamos super afastados desse lado da família, por coisas que só a família pode fazer por ela mesma. E minha mãe começou cedo a me perguntar o que eu ia vestir, como ia arrumar o cabelo. Me pilhou horrores, coisa que só minha mãe pode fazer por mim. Tive até um princípio de chiliquinho no cabeleireiro, porque resolvi fazer uma escova (para agradar minha mãe) e de repente me vi com um cogumelo na cabeça, igual à tentativa de Princípe Valente que me fizeram na primeira comunhão. Mas felizmente todo salão de cabeleireiro é meio divã, e esse tem uma dona muuuuito especial e um cabeleireiro que faz tudo pra me agradar. Conseguiram salvar meu bom humor e mandar Lizandrama Queen de volta pro lugar dela.
Aí vem a segunda coisa que não me saía da cabeça, a frase de uma das psicólogas que coordena o grupo. Falei que em casa a gente tinha aprendido a cumprir todas as obrigações, e que todas as nossas conquistas não foram mais do que obrigação. Ela disse que isso é muito comum, e que pensou até em mandar escrever na lápide: "Não fez mais do que a obrigação". Hilário. Toda hora que pensava nisso, ficava imaginando se eu também teria vontade de escrever isso na minha urna funerária, já que não quero saber de cemitério. Eu espero que no final das contas, só a morte seja não mais que a obrigação.
No fim, fui pro casamento, conversei com todas as pessoas da família de quem gosto, muito, estava me sentindo bem, ganhei elogios das pessoas mais improváveis, entre elas minha mãe. E até beijei, vejam vocês. Claro que em se tratando de mim mesma, enquanto ser humano, esse post tinha que terminar com mais uma dessas ironias do destino que só se abatem sobre mim. O cara trabalha com quê? Segundo ele, tinha uma loja de vestidos de casamento na Rua das Noivas. Vendeu, mas veja: só pode ser algum tipo de pegadinha. Divertida, mas pegadinha.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

TDQDNEF

Tem dia que de noite é foda, e tem que dia de dia também é.
Dentro do escritório tá um frio dos diabos, lá fora um calorão.
Fui buscar meu vestido de casamento, que comprei a contragosto, e não tá pronto.
Um sapato de festa custa 200 reais e eu só vou usar uma vez.
Mês passado não recebi todo meu salário e não tem um puto na conta da empresa.
A cliente não recebeu a nota então não vai depositar na data combinada.
Tenho que comprar um presente para a minha mãe, a pior pessoa pra quem alguém pode ter que dar um presente.
Um velho teve um enfarte no meio da calçada e dois polícia estavam tentando ressuscitá-lo.
Tomara que o velho não morra.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Impressões sobre a Virada - 4

O grande lance são as pessoas. Em cada show, você encontra os mais variados tipos de seres. Quando eu era adolescente, a maioria não era de tribo alguma. Mas quem era levava isso muito a sério. O figurino e o cabelo eram os sinais aparentes. Um cara de cabelo moicano era punk e não usava camiseta de banda heavy metal, como o que eu vi no metrô República na noite da Virada.
Hoje as tribos são muitas e os limites, borrados. É bom isso, né? Eu olho e na hora acho um pouco estranho uma molecada dançar pogo no show duma banda que pra mim é pop como o Ultraje a Rigor, ou ver os hippies do trance. Mas as coisas se reprocessam, a centrífuga musical mistura, separa as sementes, coa, joga fora o bagaço, e o resultado é esse suco incrível, que antes só se via nos corredores das Grandes Galerias e semana passada estava ali, em todas as praças, pra quem quisesse ver.
Pessoas, contraditórias, com gostos ecléticos e querendo ser e sobressair. Pessoas.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Impressões sobre a Virada - 3

TRILHA SONORA DA MINHA VIDA
A música que resume meus anos de 2005 e 2006 se chama "Me deixa em paz", do compositor Monsueto. Grande ponto alto do domingão, cantada pela Thalma de Freitas pra fechar o show da Orquestra Imperial. O refrão é sensacional:
Se você não me queria
Não devia me procurar
Não devia me iludir
Nem deixar eu me apaixonar
Ano passado, cheguei à conclusão de que Wander Wildner resume o sentido da vida em "Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro", que já diz tudo. Ele não esteve na Virada, mas continua uma inspiração.
E agora acho que descobri o hino de 2008: "Deixa foder", do Cachorro Grande. Tava passando na frente do show meio sem querer, não lembrava bem que banda era. Aí ouvi um hit e lembrei que é a banda gaúcha com um vocalista de voz fina estranha. Os caras tavam muito empolgados, foi bem legal. E tem essa nova música, que não consigo achar a letra, mas revela o meu momento.

Impressões sobre a Virada - 2

CONVERSA FURTADA
No show da Marina de la Riva, dois amigos conversando, o cara fala para a menina:
– O problema é a expectativa de vocês. Quando a gente fica com alguém e tá bom, a gente pensa: "Ah, vamos ver onde isso vai dar". Quando vocês ficam com alguém, pensam: "O primeiro vai ser Vandercleison, a segunda vai ser Vanderléia".

Impressões sobre a Virada - 1

A MINHA VIRADA EM NÚMEROS
Horas: 13
Horas em pé: 11
Shows inteiros assistidos: 5
Investimento: R$ 38, incluindo um almoço de verdade no Gato que Ri
Álcool consumido: zero
Aditivos químicos: dois Dorflex
Prejuízo material: zero
Prejuízo físico: dores generalizadas, devidamente aplacadas com os Dorflex
Músicas deprê favoritas tocadas: 5
Pontos altos: Thalma cantando o Monsueto e Roger cantando "Sheena is a punk-rocker"
Melhor show como um todo: Orquestra Imperial
Melhor solução: DJ de techno na bolha suspensa
Pior localização de palco: sambão espremido e em lugar de passagem na Sta. Ifigênia
Pior discriminação: galera largada no Parque D. Pedro, e ainda tendo de ser revistada
Saldo geral: positivo, acima da média, sensacional, quero mais

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Flores astrais

Quando eu tinha 4 anos, minha melhor amiga era a Tia Rosa, mulher do zelador do prédio com vista para a favela de Heliópolis onde eu morava. Todo dia, quando eu chegava da escola, dava uma passadinha na casa dela. Lembro perfeitamente dos beliscões que ela fazia, aquele biscoitinho recheado de goiabada.
Lembro do dia em que descobrimos que eu estava com meningite. Cheguei da escola, subi para a casa dela e dormi. Ela achou estranho, porque eu estava sempre correndo pra lá e pra cá, e falando sem parar. Meu pai sabia que a epidemia estava rolando, porque trabalhava em jornal. Mas nem todo mundo sabia, porque a ditadura censurava. Fui na hora pro hospital e lá fiquei uma semana. Acho que a Tia Rosa me salvou.
Outra coisa que me lembro especialmente foi do dia em que ela começou a me falar sobre a igreja que freqüentava. Ela disse que um dia estava ali naquele terraço, coisa típica de apartamento de zelador, encarapitado lá em cima no prédio, e o céu se abriu.
– O céu se abriu e foi como se aparecesse uma janela e do outro lado tinha muitas, muitas flores.
Acho que depois ela falou de alguma voz, mas só o que ficou foi a imagem daquelas flores, num quadrado no meio do céu. Pra mim eram flores cor de anil, em várias tonalidades, grandes. Sempre quis que o céu se abrisse para mim...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Post visceral

Quando eu acho que finalmente vou começar a gostar de "Julie & Julia", lá vem a decepção. Finalmente tinha encontrado um ponto em comum entre nós: o fígado. Minha boca encheu de água com a receita de fígado com mostarda que ela descreve. E a maneira como ela diz que o fígado é acolhido pelas nossas papilas gustativas, hum, quase sexual. Aliás, nesse trecho ela vinha fazendo uns paralelos muito interessantes entre sexo e comida que também me fizeram dar um desconto. Mas não, logo em seguida lá vem ela meter o pau na repartição pública onde ela trabalha. Que mala!
Tô demorando tanto pra ler esse livro que vai ver que é esse o meu carma e quando chegar ao final, terei a iluminação que procuro.

Não é normal, eu sei, mas eu realmente gosto de fígado. Uma vez declinei um convite para almoçar na casa da minha mãe no domingo porque resolvi cozinhar fígado à veneziana (picadinho, com muita cebola) e creme de espinafre (quase sem creme, com noz moscada). Hummmm... adoro!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Betties e Lizzies

O cara escolhe uma cantora de jazz, que não é minha favorita mas é cool. Nas capas dos discos ela parece muito melhor, mas no filme, de cara lavada e mostrando os quadris, parece irmã da Betty, a Feia. Isso está longe de ser um problema, eu adoro a Betty.
Wong Kar Wai manja de dor de cotovelo. Ele sabe que quando se está mal por causa de alguém, deixa-se um Jude Law pra trás. O filme é cheio de mim porque sou eu que escrevo cartas, ou e-mails intermináveis. Eu que me sinto uma chave que não vai mais abrir portas, esquecida no jarro. Ou o último pedaço de torta de mirtilo (é blueberry , em português). Eu que preciso ir, mas não vou.
E ele ainda a coloca contracenando com divas, para que possa chegar à conclusão de tem gente que nunca vai aprender a ser canalha e é bom que isso não seja um problema.
Cris manda me avisar que se eu largar um Jude Law aqui pra ir comprar um carro no interior do Ceará, ela vai me buscar. Nem que seja a pé. Vamos dizer que largar um Jude Law salvaria minha vida. Ter um Jude Law me esperando garantiria vida eterna.
Levei dois dias processando, ainda não escrevi o que gostaria. O filme acabou fiquei triste-feliz, mas só saiu isso mesmo. O crítico Luiz Carlos Merten também ficou nas nuvens. Ó o que ele diz.

domingo, 20 de abril de 2008

Mergulhar é preciso

Meio sem querer, meio de propósito, estou cercada de histórias de pessoas que tiveram um ponto de virada, uma crise profunda e dali reinventaram suas vidas.
Minha vida não é uma droga. Sob todo e qualquer ponto de vista objetivo, tá tudo ótimo. Faço o que gosto, tenho grana suficiente (mais do que a média, nunca sobrando), tenho amigos (muitos) sensacionais. Mas a imagem que me vem à cabeça agora é a de que fui até o fundo do poço, bati lá embaixo, e voltei machucada e sem ar, tentando acima de tudo sobreviver. Beleza. Tô viva.
Agora, parece que tenho que voltar lá, de uma forma controlada. Vestir uma roupa de mergulho e ir procurar alguma coisa que me escapou. Tenho medo de poucas coisas e o que vou encontrar no caminho, ou mesmo lá embaixo, não me dá medo. A sensação de ter de mergulhar é que não me atrai. Pensar em respirar por um troço na boca tendo muita água em cima é algo que nunca quis experimentar.
Bom, voltando às histórias. Primeiro foi "Comer, rezar, amar", o livro da jornalista que tirou um sabático depois de uma separação sofrida. Agora estou lendo "Julie & Julia", de uma americana que surta e resolve preparar todas as receitas da Ofélia americana e escrever num blog. O livro é mala, não estou achando graça nenhuma, talvez o blog fosse melhor. Mas o fato é que a tipa surtou e passou um ano fazendo receitas cheias de manteiga e creme de leite, enquanto se via às voltas com canos que vazavam ou entupiam, e tirando sarro do próprio emprego, que era numa repartição pública voltada para ajudar parentes das vítimas do 11 de setembro. Não exatamente o emprego do qual eu tiraria sarro, mas enfim.
E ontem mais assunto pras minhas divagações. Fui assistir "Irina Palm", que mais ou menos tem o mesmo tema. Uma cinqüentona inglesa, louca pelo neto, quer arrumar dinheiro pra ajudar o filho a levar o menino para um tratamento na Austrália. Durangos classe média, já gastaram fortunas com o menino e não têm mais de onde tirar grana. Meio desesperada, mas com toda a fleuma inglesa, ela vê um anúncio de emprego num puteirinho fuleiro em Londres. O emprego era de punheteira - o cara mete o pinto num buraco e a mulher, do outro lado, bate uma. O dono do puteiro vê potencial nas mãos macias de Maggy e decide lhe dar uma chance. Em pouco tempo, ela vira a maior punheteira do lugar e cai nas graças do sujeito. O engraçado é que a atriz é a Marianne Faithfull, a cantora drogadita da década de 70, que teve um caso tórrido com o Jagger.
O filme é pra ser um drama, tem cenas hilárias, mas achei revelador. Nada literal, porque bater punheta, definitivamente, não é uma das minhas especialidades. Mas alguma outra coisa além da minha profissão eu devo saber fazer. E, se não for pedir muito, preferia continuar não tendo que entrar pra nenhum rebanho.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Se Anália não quiser ir, eu vou só (na Virada Cultural)

Falta só uma semana para o momento anual mais importante da paulistanidade. Se existe alguma coisa que me dá alegria de viver, que me faz esquecer as palhaçadas da vida cotidiana e achar que, vá lá, existe alguma coisa que vale a pena, é a Virada Cultural.
Para uma pessoa como eu, que nasceu às margens do Ipiranga como a Independência (não vamos entrar em detalhes históricos patéticos, por favor), e que ama esta porra desta cidade, não existe evento mais incrível. Milhares de pessoas nas ruas do Centro, correndo de lá para cá, se encontrando na rua, tendo a oportunidade de ver dezenas de shows e espetáculos grátis, tudo ao mesmo tempo.
Ano passado encontrei meu amigo Walter na Praça Dom José Gaspar, onde vários pianistas tocaram para uma platéia de casais sessentões, devidamente acomodados em cadeiras. O som de ótima qualidade, a ambientação, tudo. Walter mora na cobertura de um prédio na Duque de Caxias, em frente à Sala São Paulo. Pode haver melhor companhia para percorrer as ruas do Centro do que um verdadeiro local?
Depois do pianinho, vimos um trecho de espetáculo infantil. Eram oito da noite e muitas crianças brincavam com os palhaços. Depois, percorremos as travessas que foram destinadas à música eletrônica e ao rock. Demos um rolê pela Sé, antes do show que deu briga, atravessamos o Viaduto do Chá - e passamos pela fila monumental para as atrações do Municipal.
Descemos para o Anhangabaú pra ver Clube do Balanço e Erasmo Carlos, um show incrível, lotado, uma lua sensacional, aqueles prédios em volta, e o cara emocionado de verdade de estar ali. O Clube do Balanço, que só tocava em boates, nunca tinha visto tanto público, mandaram bem.
Paramos para reabastecer no Ponto Chic do Paissandu, ali no fundo das Grandes Galerias. Tava lotado, mas logo um amigo do amigo nos colocou pra dentro e pudemos comer um bauru. Aí atravessamos a Praça da República, cheia de grupos de teatro e com uma iluminação que eu nunca tinha visto. A galera sentada no pé das árvores, batendo papo, parecia uma praça de interior.
Chegamos então no baile da saudade/gafieira armado na esquina da Vieira de Carvalho com a rua Aurora, lugar do coração onde trabalhei ano e meio. Um ambiente de boate foi montado bem no cruzamento, com chão quadriculado preto e branco e globo de espelhos. Tinha acabado o show do Cauby com a Angela Maria, mas logo começou uma banda de salsa cubana, do sobrinho do Ibrahim Ferrer, um dos velhinhos do Buena Vista Social Club. Casais gays e héteros dançavam juntinhos, uma galera mais nova pulava em volta do tabladinho, o clima tava muito bom.
O show acabou quase quatro da manhã. Voltei de metrô com um pessoal que conheci ali, morrendo de feliz. No dia seguinte, ainda fui no Parque Vila-Lobos duas vezes assistir concertos, que rolaram o dia inteiro.
No jornal de segunda-feira, tudo que tinha saído era a briga que deu no show dos Racionais. Soube por uma amiga jornalista de uns bastidores que mostram bem como funciona a "coisa". Praticamente nenhum veículo de imprensa cobriu o evento. Vi vários fotógrafos de jornal, mas não tinha mesmo equipes de TV. Parece que uma jornalista que estava com a própria câmera gravou a briga e foram essas as únicas imagens existentes do evento. É claro que quem não foi achou que a noite foi uma grande pancadaria.
No dia seguinte, um amigo meu que também apostou no evento escreveu um e-mail sobre a noite dele, que foi parecida com a minha. Azar de quem tem medo, uma lástima. Só vão saber da parte ruim, se existir. Se não acontecer nenhuma tragédia, ninguém vai saber de nada.
Mas vamos ao que interessa: este ano tem a Cesária Évora, várias cantoras que eu gosto no palco das meninas, vai ter a gafifa de novo na Vieira, o pianinho, dança, mais um monte de coisa. No palco do rock, a banda mais paulistana de todos os tempos, Ultraje, a galera do rap tem Afrika Bambaata no Palácio das Indústrias. Nem vou falar mais que tem a programação completa no site. Mas tenho que puxar a sardinha pro nosso lado e dizer que o pessoal do Festival de Curtas armou uma programação sensacional de curtas, que vão ser exibidos numa mega tela em frente ao Municipal. Meio que o que rolou na abertura do 15º Festival, quando as pessoas ficaram vendo filmes sentadas na escadaria, que funcionou como uma arquibancada.
Bom, eu chego sábado no final da tarde, sem hora pra sair. Afinal, a Orquestra Imperial só toca na tarde de domingo, né?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

One is the loneliest number

Ainda em fase de digestão de My Blueberry Nights, do Wong Kar Wai. Não consigo começar por nada menos metido do que o fato de ter achado que ele fez o filme pra mim, então vou precisar processar um pouco mais.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Tudo que é muito, é demais

Raquel, sempre ela, me levou pra ver o Cirque du Soleil. Achei um tantinho de Fellini ali e gostei. Meio macabrinho nos figurinos, me pegou mais do que o espetáculo anterior. Tinha um quê de circo freak, duas meninas chinesas contorcionistas pareciam as siamesas de Peixe Grande , do Tim Burton, uma aflição.
Os palhaços, pra variar, custaram a me arrancar um risinho nervoso. Tem interação com a platéia eu já me encolho e tremo. O pobre homem pinçado do meio da platéia perdeu o rumo, não achava o lugar de volta, teve de ser resgatado pela mulher em meio às gargalhadas do povaréu, de que povo não tinha nada. Engraçado ver o desfile de grifes pra ir ao banheiro de obra montado ao ar livre.
Eu admiro, acho incrível o que aquelas pessoas são capazes de fazer com o corpo, as roupas, as músicas. É lindo. Lindo demais. Perfeito demais.

Festa do pijama

Semana passada minha querida Raquel fez aniversário e mais uma vez nos reunimos na casa dela, onde sempre acontecem as festas mais gostosas. Vez por outra, aparece a Cris - no primeiro ano de faculdade éramos nós três, inseparáveis. Cris apareceu e, como diz a Raquel, quando nos juntamos as três sai faísca. Não coube toda essa fagulhada numa noite só, estamos em abril, tava virando são joão.
Pra continuar a celebração dos nossos encontros esporádicos, resolvemos fazer uma festa do pijama. "Xi, gente, fim de semana não posso que tenho espetáculo na hora do almoço", disse a Cris. É bom que se diga que ela é atriz e diretora de teatro, fugiu logo do jornalismo, assim como a própria Raquel. Ótimo.
Então quarta-feira saio de casa de mala e cuia, travesseiro e cobertor. Passei no mercado que a cozinheira sou eu, peguei a Cris e lá fomos pra casa da Raquel. Fiz uma sopinha de mandioquinha com alho-poró e nos pusemos a assistir Shortbus, filme que já comentei aqui. Adorei de novo, elas também gostaram. Falamos, faiscamos, comentamos o filme. Fomos dormir às 3 e tanto, exaustas. Faltou só a noite estar clara, pra gente mostrar Saturno pra Cris.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Qual é o seu sonho?

Alma portenha

Semana passada minha aula de variedades lingüísticas e cultura dos países que falam espanhol foi sobre a Argentina. A professora, argentina que vive no Brasil há cinco anos, fez várias comparações entre a alma argentina e a brasileira, com muita ponderação.
Pra resumir muito mesmo, os argentinos (especialmente os portenhos) têm esse espírito mais belicoso e uma vontade incontida de sofrer, além da arrogância e da auto-estima quase risíveis de tão grandes. Eles têm o tango, nós temos o samba. Eles acham que lá tudo é melhor, nós achamos que tudo que é estrangeiro é melhor. A conclusão geral foi que os argentinos precisam sair de lá pra descobrir que eles não são o melhor país do mundo, e nós precisamos sair daqui pra descobrir que somos muito melhores do que pensamos.
Eles têm Cortázar, e Cortázar é isso:

Instruções para dar corda no relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume de um pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

(em Histórias de Cronópios e de Famas)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Placebos emocionais

Por falar em placebo emocional, vou tentar explicar esse conceito por mim desenvolvido com um exemplo. Sabe aquele filme com o Jack Nicholson e a Helen Hunt, "Melhor é impossível"? Tem o Greg Kinnear, que faz papel de um gay.
Lá pelas tantas, o coração do Jack Nicholson tá começando amolecer e o casal to-be arma uma viagem para levar o Kinnear à casa dos pais. No meio do caminho, o Jack Nicholson pisa na bola, seguindo seus instintos masculinos mais baixos, e ela é obrigada a se refugiar no quarto do cara que se revela um dos melhores placebos emocionais da história.
O cara não só dá o colo que ela precisa, como levanta horrores a auto-estima dela e ainda a faz morrer de rir. Veja se não é um exemplo crasso de placebo emocional. E não é nada além disso, porque ele não está interessado nela e ela sabe que daquele mato não sai coelho. Mas tudo bem, porque funcionou num momento específico e pode ser que nem role de novo.
Em geral, os placebos da vida real não são tão completos assim. Eu preciso de vários para suprir uma série de necessidades que vão além da amizade. Os amigos em geral suprem minha carência de ombro para chorar as pitangas, companheiros de balada e cobaias para a minha comida.
Mas os placebos ocupam funções muito particulares. Por exemplo, um amigo gay às vezes ia dormir em casa quando não tinha como voltar de festas. Aí como só tinha espaço na minha cama, a gente dormia junto e eu acordava 50% mais feliz, como se tivesse dormido com um namorado, porque a gente ficava conversando até de madrugada sobre a vida, o universo e tudo o mais e isso me é praticamente 50% da alegria de ter um homem pra chamar de seu.
Depois tem aquele placebo a quem você pode recorrer com intenções mais sórdidas, a coisa acontece e cada um vai embora sem maiores. Não rola constrangimento, tudo se resolve ali mesmo e os dois deitam a cabeça no travesseiro e dormem, cansados, não importa se juntos ou separados.
Só pra ressaltar: o cara cumpre um papel que pode interessar só a você, curte junto e só. Em outros momentos, você pode ser amigo dessa pessoa e desenvolver atividades mutuamente agradáveis. Mas os placebos emocionais são, em última análise, funcionais. E, por princípio, não costumo dormir com meus amigos.

Sê bem-vinda

Estou aqui toda feliz porque amanhã minha terapeuta volta de férias, depois de um mês e meio viajando pela Europa e Índia. Acredito que me comportei muito bem nesse período. Mas vai ser bom reencontrá-la, porque minha vida sentimento-emocional, que passou o ano passado inteiro mais árida que o deserto de Sonoma, está toda agitadinha este ano.
O saldo não foi tão positivo, mas pelo menos estou me divertindo um pouco, sem grandes fritações mentais. Pra resumir, vou contar pra ela que:
- tive uma recaída com meu placebo emocional primordial, o que foi ótimo;
- fiquei sabendo que um antigo prospect um pouco mais velho do que eu está namorando uma banqueteira famosésima muito mais velha do que eu, o que me gerou sentimentos contraditórios; ao ouvir a notícia, fiquei passada; em seguida, achei que isso pode dar um up no meu conceito, já que a namorada é realmente poderosa;
- para ser bem rampeira, dei um pé na bunda e, por assim dizer, tomei outro, mas tudo na santa paz.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Legal ma non troppo

Essas histórias de bater papo com desconhecidos acontecem comigo sempre. Pára-raio de loucos, diria a Matina.
Foram várias histórias, mas a mais radical foi a vez em que fui madrinha de casamento de um cara que conheci no ônibus. Não o ônibus escolar, mas o coletivo mesmo. Tinha uns 16 anos e voltava todo dia de ônibus, duas horas e meia de trajeto, do cursinho, no Centro, para casa, em Interlagos. São quase 30km. O ônibus ia pelo corredor e parava no Terminal Santo Amaro, nonde a rente bardeava protra condução, o Jardim Satélite.
O noivo fazia o mesmo caminho que eu e às vezes segurava meu material, porque eu tomava no terceiro ponto e o ônibus já tava lotado. Ele entrava no Centro, a namorada no Itaim. Não tinha celular, mas eles se coordenavam e tomavam o mesmo ônibus. Acho que tinha era pouca condução... A gente sempre conversava, até que os pombinhos resolveram se casar e me convidaram pra madrinha. Aceitei, né? Ia fazer o quê? Meu namorado na época, um santo, ainda foi comigo uma vez num almoço de domingo no Grajaú, logo depois do casório, quando fomos visitar a casa deles. Mas não consegui levar adiante a amizade, porque entrei na faculdade e um mundo novo se abriu. Ele ligava sempre pra casa, às vezes desabafava com a minha irmã, dizendo que eu era uma madrinha relapsa.
Eu era mesmo. Mas ele já me perdoou, dia desses que me achou no Orkut. Também já separou daquela mulher, já tem outra, tá tudo lindo. Demorou um pouco, mas aprendi que a gente não pode ser tãoooo legal com as pessoas, sabe? Porque elas vão querer que você seja legal sempre. E se um dia você não tiver vontade de ser legal, elas vão ficar de mal.
Li uma vez uma declaração do Ziraldo dizendo que a maior maldição para o ser humano era a frase do livro de miss, O Pequeno Príncipe, que diz que tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Na hora achei absurdo alguém questionar isso, mas hoje acho que o Ziraldo tem razão. Ser muito legal pode ser uma amolação duradoura.
Ano passado dei mole prum velhinho em Buenos Aires e o que era um papo furado no meio da rua virou um convite pra jantar, que eu não soube recusar, e uma cantada muito ordinária no final. Ainda não aprendi a dizer tudo o que penso na lata para quem não conheço bem. Sou expert em tocar o dedo na ferida dos amigos, mas sempre poupo os conhecidos. Tenho treinado, estou tentando.

Estreitando laços

Ainda não conheço a Mara, mas agora já conheço a Rose. Ela inclusive mandou um recado: disse pra eu avisar a Mara que ela é uma tratante, que não aparece pra visitar a comadre. O recado me foi passado esta semana, depois que a Rose tentou – em vão – ligar no meu celular várias vezes. Da primeira vez foi a cobrar, daí já me liguei que não era pra mim, era pra Mara. Não bastasse, eu ainda confundi o telefone da Rose com o da minha roomie e mandei uma mensagem de texto pra ela.
Aí a Rose me ligou de novo, achando que era pra Mara, e tivemos a oportunidade de dar boas gargalhadas – depois que eu contei que já conheço várias facetas da vida da madrinha do filho dela, graças às pessoas que ligam errado pro meu celular. Pra quem não leu o post anterior, ela tem o mesmo número que eu, com prefixo de Santos. Continuo sem saber se as pessoas ligam errado ou se é algum buraco negro do sinal da Claro. Mas o fato é que tenho uma nova amiga.

Reforma ortográfica

No meu livro de redação da quinta série do primeiro grau (hoje sexta séria do ensino fundamental), tinha uma crônica sobre acentuação. Posso estar totalmente equivocada dos detalhes, mas basicamente um professor de português entrava numa loja de armarinhos numa cidade de interior e comentava com o proprietário que faltava um acento no A do letreiro da loja, que dizia Aguia de Prata. O hómi (paroxítona terminada em "i") logo respondia que não, tava certo do jeito dele, porque não era Águia, mas Agúia. De qualquer forma, faltava um acento... Sem ele, a leitura seria "aguía", certo?
As crianças nunca mais vão entender o trocadilho depois que a reforma ortográfica for implantada em 2010, porque com ela caem de vez os acentos da base dos ditongos abertos, como queria o matuto. Logo, palavras como agúia e zóio não serão mais acentuadas.
Me disse uma revisora esta semana que ela já está revisando didáticos para 2010, tendo que aprender as novas regras sem deixar de lado as velhas. Muita gente, diz ela, está tirando o acento também de palavras como saúde, achando que é a mesma coisa. Mas não é: aí é "i" ou "u" tônico dos hiatos (foi assim que me ensinaram na escola) e essa regra continua existindo. Muita gente pode achar complicado, mas conhecendo as regras se vê que elas têm uma certa lógica. Podiam ser mais simples, claro, mas cumpriam sua função.
Eu que tinha um apreço todo especial pelo trema, estou lamentando sua partida... para sempre, como intuiu a Folha de S.Paulo. Reza a lenda que quando a Folha informatizou a redação, o sistema adquirido não tinha trema. Logo, o jornal, sempre na vanguarda, reformou a ortografia do português limando oficialmente o trema de seu manual de redação. Quando fui trabalhar lá na área de livros, reabilitamos o combalido trema, mas agora teremos de nos despedir mesmo.
As mudanças não são só essas, têm mais. Tenho pena de quem está saindo da escola nos próximos anos. Não vão ter tempo de aprender de novo e vão acabar escrevendo errado para sempre...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Presente pra mim

Quando estive no Rio há algumas semanas, fui na Livraria da Travessa de Ipanema, um dos meus lugares preferidos da vida. Tinha saído da praia, comido comida japonesa, meus amigos foram pro Maraca, mas eu preferi voltar caminhando pra Copa.
Entrei na livraria, que estava cheia de uma forma decente, e logo vi essa capa. Um mosaico super colorido, com alguma coisa de rosa choque. Era um livro da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, com matérias que ela publicou no El País.
Fiquei passada. A capa, perfeita. O conteúdo, inédito. Resolvi levar, claro. Subi pra tomar um café segurando o livro, olhando, folheando, namorando. Consegui sentar na hora e tomar um café, coisa que é quase impossível nas melhores livrarias de São Paulo.
Na hora de pagar, o caixa me perguntou: "É pra presente?". "Sim", respondi. E trouxe o livro embrulhado para São Paulo. Ficou em cima da cômoda, esperando. Segunda-feira achei que merecia ganhar um presente. Abri o pacote com cuidado, tirei o livro de dentro. Namorei mais um pouco aquela capa linda, e comecei. Estou pensando inclusive em escrever uma dedicatória pra mim.

Boas risadas

Tenho uma nova flatmate que parece muito séria. Mas é muito bom quando a gente faz ela rir, porque ela tem uma gargalhada muito boa de se ouvir.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Prazer, Perséfone

Esta semana até pensei em sofrer. Dei uma resvalada na melancolia, que resultou no versinho deprê de ontem — e olha que eu e a poesia não nos bicamos muito. Mas fiquei com preguiça.
Amigos, placebos emocionais. O que seria de mim sem eles? Não vou explicar agora o conceito por mim criado de placebo emocional, porque também estou com preguiça disso. Mas esta semana eles foram fundamentais.
E ainda recebi a visita de uma amiga, daquelas que você vê uma vez e já sabe que vai sempre fazer parte da sua vida, mesmo que não se encontrem nunca mais. Pensei tanto nela semana passada, e do nada me ligou pra me convidar pra participar de uma pesquisa muito legal, além de me mostrar o livro que está escrevendo e ilustrando. Encheu meus olhos de lágrimas várias vezes.
E me lembrou o que já tinha me dito da outra vez. A descida ao inferno está apenas começando. E não é que estou achando bom?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Vácuo

No meio de tantas palavras
Pulsa
Coisa que não se explica
Tensa

Palavras não bastam
Pra quem delas vive
Oca

BBB é cultura

Meu pai, que é uma pessoa mega antenada, hoje me contou que fez uma grande descoberta graças ao BBB. Ontem ele ficou sabendo que o Rafinha é emo. A gente até discutiu o conceito, e minha mãe e ele chegaram à conclusão de que o Rafinha não é tão emo assim. Para dar um exemplo, citei o último filme do Homem Aranha, em que o herói se transforma em Emo-Aranha. Não viram, mas entenderam o conceito.

Alô, dona Lizandra

É de manhã, vem o sol e com ele a ressaca. A gente perde a hora, mas não por muito tempo. Logo toca o telefone e é ela, a fofa representante da LBV. Não existe telemarketing mais infernal do que o da LBV. Dá um ódeo no fundo do nosso coraçãozinho. Especialmente porque as fofas ligam antes das nove da manhã, com aquela simpatia toda, te chamando de dona. E não basta a gente ter caído no conto da LBV uma vez, e aceitado dar uma contribuição mensal, que elas ligam agradecendo horrores e logo dão o bote: uma hora é o ovo de páscoa, outra o material escolar. E foi assim que eu acordei hoje.
Bebe na terça-feira, desgraçada, bebe e perde a hora da academia pra você ver. O castigo vem pelo telefone.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Final aberto

Toda vez que minha ex-sogra via um filme com final aberto, ela viajava no que tinha acontecido depois. Aí, se não ficava claro que o casal tinha ficado junto, ela dizia: "Ah, mas depois eles se encontraram e colocaram tudo em pratos limpos". Não, minha gente, final é aberto é final aberto. Serve pra aprender que nem tudo nessa vida tem explicação. E talvez seja melhor que não tenha mesmo.

Banho de água fria

Pesquisas científicas comprovam que banhos de água fria são muito benéficos à saúde. Têm o poder de reenergizar o corpo, fazendo o sangue circular mais rápido. E a água fria leva pensamentos e sentimentos inúteis, dando uma providencial congelada no cérebro. Tô saindo pra academia, esperando encontrar uma aula de artes marciais, podendo exercitar, assim, umas voadoras.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Em prol do silêncio

Se tem uma coisa que acaba com um filme é uma trilha ruim. No Brasil, tenho a impressão de que quase todo diretor de cinema to be tem um amigo músico to be. Então quando o diretor vai fazer um filme, já está implícito que seu amigo vai fazer a música. Mesmo quando o filme não precisa de música alguma. O resultado costuma ser uma música incidental constante, irritante, especialmente nos curtas.
Ainda tem as trilhas que tentam cutucar a emoção do espectador, criando clima de novela. "Agora ri", diz a trilha. "Agora chora." É um alívio quando um filme tem músicas boas e os silêncios fundamentais. Uma das melhores trilhas de filme brasileiro pra mim é a do "Houve uma vez dois verões", do Jorge Furtado. Tem várias bandas gaúchas fazendo uns covers sensacionais. A do "Meu nome não é Johnny" é bacana também. E o filme tem silêncios, ufa.
Mas trilha ruim não é privilégio nosso. Ontem assisti "Simplesmente Martha", que é o filme original alemão que virou a versão americana "Sem reservas", com a Catherine Zeta-Jones. Jesus alado! Que música medonha! Começa um pianinho até que razoável que vira um solo de sax digno do Kenny G. Cada vez que o sax começava, dava um arrepio de vergonha alheia. O filme tem uma mão mais leve na direção, os atores são ótimos, a transição da personagem principal é mais sutil. Mas a trilha... de matar.
Vi "Sangue Negro", do PTA, no domingo e achei a trilha meio pesada. O começo do filme é sensacional, devem ser mais de 20 minutos sem nenhum diálogo. Aí a música funciona bem. E como o filme é do PTA, não é uma trilha convencional. Mas tem horas que fica alto demais, trágico demais. Fiquei reparando na imagem pra ver se teria a mesma força sem a música por trás. Acho que não teria não.

terça-feira, 18 de março de 2008

Mais vale um gosto

Sim, eu atraio pessoas peculiares — para não dizer que sou pára-raio de loucos, como algumas amigas gostam de me chamar.
Estava lembrando hoje de uma figura que trabalhou em casa. Ela adorava cinema e televisão e ficou louca quando soube que meu ex trabalhava com cinema. Ela era uma pessoa de opinião.
Naquela época, a Record exibia uma novela com o Mauricio Mattar. Ele era um mega empresário, que numa linha cruzada conversa por acaso com uma presidiária e os dois se apaixonam (!). A empregada do Mauricio Mattar era uma atriz amiga nossa, e na novela se chamava Matilde. Quando contamos para a moça que conhecíamos aquela atriz, ela ficou louca. "Nossa! A Matilde? É minha atriz preferida! Ela e o Seu Cocada." Seu Cocada, para quem não se lembra, era um personagem absurdo de um programa de humor desses de quinta catigoria, interpretado pelo Rony Cócegas.
Cinematograficamente, a moça gostava basicamente de filmes de terror. Seu predileto era "Chuck, o Brinquedo Assassino", que ela carinhosamente tinha apelidado de "o Boneco". Como o marido dela trabalhava numa locadora, ela tinha conseguido uma cópia do filme, que sacava sempre que a novela estava chata. Quando ela chegava de manhã, o Paulo perguntava: "Então, o que você assistiu ontem?" Ao que ela prontamente respondia: "Ah, a novela estava chata, então vi o Boneco".