Ressuscitei esses dias um CD do Caetano (Cinema Transcendental) que tem essa música.
Engraçado que esta semana entrevistei o poeta Ferreira Gullar para a revista Casa Claudia Luxo (na próxima edição, quatro materinhas minhas que adorei fazer), responsável pelo Manifesto Neoconcreto.
Os neoconcretos - Helio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Amílcar de Castro e outros - questionavam a matemática e o racionalismo dos concretistas, propondo uma arte que despertasse os sentidos.
Mas é do concretista Augusto de Campos a letra dessa música, uma das melhores definições de mulher que conheço, sensível com um toque impagável de safadeza. Essa mão, hummmmmmm...
Elegia
(Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos)
Deixe que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo
Entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como uma encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
domingo, 15 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Outra lição
A lição de ontem foi um exercício futurológico. Agora a gente teve de escrever para nós mesmos velhinhos. Aí ficou assim:
"Cara eu mesma velhinha,
É engraçado, sabe? Sua imagem para mim é nítida. Cabelos sem tinta. Cachos azulados, talvez, com essas rinsagens antigas. Vai ser bem legal ser uma velha de cabelo roxo. Um pouco mais gordinha, claro. Esses culotes não vão sumir.
Já pensei tanto em você sozinha, numa casa gostosa, cheia de amigos de todas as idades, que é difícil conciliar essa ideia com meus próprios desejos. Porque hoje tenho vontade de ter uma família. Você sabe que filho sem pai não é comigo. Para mim, filhos sempre foram a consequência de um casamento feliz.
Não que eu tenha a ilusão do pra sempre, como eu te disse quando criança. Sei que a vida dá voltas e hoje tenho alguma experiência nisso, para o bem ou para o mal. Mas o começo precisa ser muito bom, você não concorda? Um pouco de segurança, um conforto de saber que ao seu lado há alguém para o que der e vier.
Talvez quando você estiver aí cozinhando e tocando a nossa hospedaria, ou algum outro negócio, você imagine que eu tenha deixado escapar oportunidades. Que no fim a gente daria um jeito. Afinal, foram tantas coisas que fizemos sozinhas, com essa independência que tanto assusta as pessoas.
Me desculpe se você se sente só. Espero sinceramente que ainda dê tempo de encontrar alguém que me faça sentir a segurança de que preciso. Eu já senti isso, você sabe. E confio ainda vou sentir de novo. Torça por nós. Assim, vou poder criar uma nova imagem de você, ainda fazendo um monte de coisas, mas cercada de netos e bichos.
Com carinho,
Eu, hoje"
"Cara eu mesma velhinha,
É engraçado, sabe? Sua imagem para mim é nítida. Cabelos sem tinta. Cachos azulados, talvez, com essas rinsagens antigas. Vai ser bem legal ser uma velha de cabelo roxo. Um pouco mais gordinha, claro. Esses culotes não vão sumir.
Já pensei tanto em você sozinha, numa casa gostosa, cheia de amigos de todas as idades, que é difícil conciliar essa ideia com meus próprios desejos. Porque hoje tenho vontade de ter uma família. Você sabe que filho sem pai não é comigo. Para mim, filhos sempre foram a consequência de um casamento feliz.
Não que eu tenha a ilusão do pra sempre, como eu te disse quando criança. Sei que a vida dá voltas e hoje tenho alguma experiência nisso, para o bem ou para o mal. Mas o começo precisa ser muito bom, você não concorda? Um pouco de segurança, um conforto de saber que ao seu lado há alguém para o que der e vier.
Talvez quando você estiver aí cozinhando e tocando a nossa hospedaria, ou algum outro negócio, você imagine que eu tenha deixado escapar oportunidades. Que no fim a gente daria um jeito. Afinal, foram tantas coisas que fizemos sozinhas, com essa independência que tanto assusta as pessoas.
Me desculpe se você se sente só. Espero sinceramente que ainda dê tempo de encontrar alguém que me faça sentir a segurança de que preciso. Eu já senti isso, você sabe. E confio ainda vou sentir de novo. Torça por nós. Assim, vou poder criar uma nova imagem de você, ainda fazendo um monte de coisas, mas cercada de netos e bichos.
Com carinho,
Eu, hoje"
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Lição de hoje
Hoje era pra fazer uma carta pra gente mesma criança que contivesse as seguintes palavras: vela, guarda-chuva, lentes, um laço e durinha. Eu, muito obediente, fiz do jeito que mandaram, com as palavras na ordem:
"Cara mim mesma pequena,
Se tem uma coisa que você pode ficar tranquila desde já é que palavras não vão lhe faltar. Você não vai ser dessas que precisa acender vela antes de prova. Pode contar com isso. As palavras vêm.
Mas nem sempre na hora que você precisa delas, é claro. Afinal, palavras são que nem guarda-chuva. Por mais que se seja precavido, quando menos se espera ele ficou em casa, todo encolhido, enquanto a chuva desaba lá fora.
Pode contar, então, com a imprevisibilidade das coisas. Assim como não existem fatos, apenas versões, também há sempre lentes que aumentam e diminuem o que seus olhos acham que veem.
Por mais que você tente aprisionar a verdade, é bom que se diga: ela sempre se desfaz como um laço de fita. E pode reparar: mesmo que a gente refaça o laço, ele nunca fica exatamente igual ao outro.
Ah, tem outra coisa importante. Papai Noel existe. Coelhinho da Páscoa também. Mas pra sempre não tem. Não sei quem foi que inventou o pra sempre, mas não vou enganar você: isso não existe mesmo.
Então não precisa ficar sempre assim, durinha. Pode relaxar. Isso. Descansa. Melhor já ir treinando.
A gente se vê,
Você maiorzinha"
"Cara mim mesma pequena,
Se tem uma coisa que você pode ficar tranquila desde já é que palavras não vão lhe faltar. Você não vai ser dessas que precisa acender vela antes de prova. Pode contar com isso. As palavras vêm.
Mas nem sempre na hora que você precisa delas, é claro. Afinal, palavras são que nem guarda-chuva. Por mais que se seja precavido, quando menos se espera ele ficou em casa, todo encolhido, enquanto a chuva desaba lá fora.
Pode contar, então, com a imprevisibilidade das coisas. Assim como não existem fatos, apenas versões, também há sempre lentes que aumentam e diminuem o que seus olhos acham que veem.
Por mais que você tente aprisionar a verdade, é bom que se diga: ela sempre se desfaz como um laço de fita. E pode reparar: mesmo que a gente refaça o laço, ele nunca fica exatamente igual ao outro.
Ah, tem outra coisa importante. Papai Noel existe. Coelhinho da Páscoa também. Mas pra sempre não tem. Não sei quem foi que inventou o pra sempre, mas não vou enganar você: isso não existe mesmo.
Então não precisa ficar sempre assim, durinha. Pode relaxar. Isso. Descansa. Melhor já ir treinando.
A gente se vê,
Você maiorzinha"
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O tao da espera
Eu não gosto de esperar. Não sei se alguém gosta, mas eu não gosto. Faz duas semanas que eu praticamente não faço outra coisa além de esperar. Me assombro com a minha própria capacidade. Não gritei. Não dei piti ao telefone. Quase nem chorei. Pouco perdi o sono. Até ganhei uma cartela de "boa noite cinderela" de uma amiga insone e nem usei.
Apesar de já estar bem próxima da cura, tanta espera me fez ver que um certo trauma ainda persiste. O mundo me fez assim. Não foi uma nem duas vezes que liguei para saber por que o ser humano estava atrasado e o ser humano não atendeu. Ou tinha esquecido completamente.
Comecei a tentar confirmar antes. Para não correr o risco de ficar pronta na sala esperando e passando fome. Mas não adiantava confirmar de manhã, porque até a hora da história o ser humano podia ter se esquecido de novo. Aí eu precisava ligar/mandar email/smssar mais de uma vez. E fazer papel de louca.
Eu sei que não é o caso. Eu tenho certeza de que não é o caso. Mas além da espera ainda tem o suspense. E essa combinação desafia todo o treinamento zen a que venho me submetendo nos últimos anos.
Apesar de já estar bem próxima da cura, tanta espera me fez ver que um certo trauma ainda persiste. O mundo me fez assim. Não foi uma nem duas vezes que liguei para saber por que o ser humano estava atrasado e o ser humano não atendeu. Ou tinha esquecido completamente.
Comecei a tentar confirmar antes. Para não correr o risco de ficar pronta na sala esperando e passando fome. Mas não adiantava confirmar de manhã, porque até a hora da história o ser humano podia ter se esquecido de novo. Aí eu precisava ligar/mandar email/smssar mais de uma vez. E fazer papel de louca.
Eu sei que não é o caso. Eu tenho certeza de que não é o caso. Mas além da espera ainda tem o suspense. E essa combinação desafia todo o treinamento zen a que venho me submetendo nos últimos anos.
Coisa de mãe
Minha mãe não é judia, está longe de ser superprotetora. Esses dias a levei ao médico e no caminho saiu um papo de QI. Ela comentou que o QI médio fica entre 95 e 115 e lembrou que eu tinha feito um teste de QI na infância, com uma psicóloga amiga de alguém que precisava treinar.
"Eu me lembro", respondi. "Eu tinha uns sete anos." Minha mãe, que está perdendo a memória, lembrou do resultado do teste, coisa que eu não me lembrava. "Tô acima da média, então, né?", comentei. Sabe o que ela respondeu? "Xi, mas será que ainda vale?"
Depois não sabe porque a gente tem problema de auto-estima.
"Eu me lembro", respondi. "Eu tinha uns sete anos." Minha mãe, que está perdendo a memória, lembrou do resultado do teste, coisa que eu não me lembrava. "Tô acima da média, então, né?", comentei. Sabe o que ela respondeu? "Xi, mas será que ainda vale?"
Depois não sabe porque a gente tem problema de auto-estima.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
O que eu ia ser quando crescer
A maior viagem em termos de "o que eu quero ser quando crescer" foi lá pela quinta ou sexta série, quando achei que queria ser dentista.
Meu primo apareceu em casa nas férias com uma maleta cheia de moldes de aparelho e instrumentos velhos de dentistas. Ele deve ter passado uma semana lá em casa e nesse meio tempo a gente ficou cutucando os moldes, furando cáries e cobrindo de novo com gesso.
Daí que essa brincadeira que talvez tenha mais a ver com escultura do que com odontologia me fez achar que poderia ser dentista. Mas não, né? Isso foi viagem mesmo.
Meu primo apareceu em casa nas férias com uma maleta cheia de moldes de aparelho e instrumentos velhos de dentistas. Ele deve ter passado uma semana lá em casa e nesse meio tempo a gente ficou cutucando os moldes, furando cáries e cobrindo de novo com gesso.
Daí que essa brincadeira que talvez tenha mais a ver com escultura do que com odontologia me fez achar que poderia ser dentista. Mas não, né? Isso foi viagem mesmo.
Sonho de infância
Estava lendo no blog Tantos Clichês, que descobri hoje, que a moça sempre quis ser professora, desde pequena.
Eu brincava de professora. Mas minha prima e eu brincávamos mais de banco. A gente tinha um caderno com entradas e saídas e roubava formulários de depósito de todos os bancos possíveis.
Antes de ir para a casa dela nas férias, eu passava em todas as agências bancárias no caminho entre a escola e o ponto de ônibus e pegava os formulários. Quando eu chegava lá no interior, a gente ia na papelaria e comprava DARFs de todas as cores. Aí passávamos as férias todas nos divertindo com a burocracia brasileira.
Não sei quando foi que achei que não levava jeito pra essa coisa de planilhas e administração. Já fui meio relaxada, mas hoje minhas planilhas são um primor.
No fundo, sempre quis mesmo é administrar uma papelaria, cheia de lápis e canetinhas de todas as cores, papeis de carta, pastas, cadernos. Não sei o que seria de mim hoje, com essa oferta insana de produtos chineses. Eu ia pirar!
Sempre gostei de ler e escrever, mas acho que gostava mais de ir na papelaria.
Eu brincava de professora. Mas minha prima e eu brincávamos mais de banco. A gente tinha um caderno com entradas e saídas e roubava formulários de depósito de todos os bancos possíveis.
Antes de ir para a casa dela nas férias, eu passava em todas as agências bancárias no caminho entre a escola e o ponto de ônibus e pegava os formulários. Quando eu chegava lá no interior, a gente ia na papelaria e comprava DARFs de todas as cores. Aí passávamos as férias todas nos divertindo com a burocracia brasileira.
Não sei quando foi que achei que não levava jeito pra essa coisa de planilhas e administração. Já fui meio relaxada, mas hoje minhas planilhas são um primor.
No fundo, sempre quis mesmo é administrar uma papelaria, cheia de lápis e canetinhas de todas as cores, papeis de carta, pastas, cadernos. Não sei o que seria de mim hoje, com essa oferta insana de produtos chineses. Eu ia pirar!
Sempre gostei de ler e escrever, mas acho que gostava mais de ir na papelaria.
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