sexta-feira, 4 de abril de 2008

Reforma ortográfica

No meu livro de redação da quinta série do primeiro grau (hoje sexta séria do ensino fundamental), tinha uma crônica sobre acentuação. Posso estar totalmente equivocada dos detalhes, mas basicamente um professor de português entrava numa loja de armarinhos numa cidade de interior e comentava com o proprietário que faltava um acento no A do letreiro da loja, que dizia Aguia de Prata. O hómi (paroxítona terminada em "i") logo respondia que não, tava certo do jeito dele, porque não era Águia, mas Agúia. De qualquer forma, faltava um acento... Sem ele, a leitura seria "aguía", certo?
As crianças nunca mais vão entender o trocadilho depois que a reforma ortográfica for implantada em 2010, porque com ela caem de vez os acentos da base dos ditongos abertos, como queria o matuto. Logo, palavras como agúia e zóio não serão mais acentuadas.
Me disse uma revisora esta semana que ela já está revisando didáticos para 2010, tendo que aprender as novas regras sem deixar de lado as velhas. Muita gente, diz ela, está tirando o acento também de palavras como saúde, achando que é a mesma coisa. Mas não é: aí é "i" ou "u" tônico dos hiatos (foi assim que me ensinaram na escola) e essa regra continua existindo. Muita gente pode achar complicado, mas conhecendo as regras se vê que elas têm uma certa lógica. Podiam ser mais simples, claro, mas cumpriam sua função.
Eu que tinha um apreço todo especial pelo trema, estou lamentando sua partida... para sempre, como intuiu a Folha de S.Paulo. Reza a lenda que quando a Folha informatizou a redação, o sistema adquirido não tinha trema. Logo, o jornal, sempre na vanguarda, reformou a ortografia do português limando oficialmente o trema de seu manual de redação. Quando fui trabalhar lá na área de livros, reabilitamos o combalido trema, mas agora teremos de nos despedir mesmo.
As mudanças não são só essas, têm mais. Tenho pena de quem está saindo da escola nos próximos anos. Não vão ter tempo de aprender de novo e vão acabar escrevendo errado para sempre...

Um comentário:

Elis Marchioni disse...

Ainda conheço gente que usa os acentos diferenciais abolidos em 1971, como: bólo e bôlo; pêla e péla; pôlo e pólo; modêlo e modelo, etc...

beijo.