sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Orientalidades

Fazia tempo que não me empolgava tanto com um livro, a ponto de me atrasar para o trabalho para terminar de ler. Até fiz café (com minha nova cafeteira italiana que ganhei de Natal, senscional!), coisa que não faço nunca, só pra poder terminar. O livro é despretrencioso e se chama "Sopa de Romã", de uma iraniana que morou na Argentina e hoje vive na Irlanda. É a história de três irmãs iranianas que fogem para a Inglaterra e depois acabam parando numa cidadezinha do interior da Irlanda, onde abrem um restaurante. Uma coisa meio "Chocolate" meio "Como água para chocolate" (está escrito na capa) ou outros que-tais gastronômicos. No início de cada capítulo, uma receita iraniana. E a tradução é da Nina Horta.
Uma das receitas me deixou intrigada, isso deve ser bom pra cacete, vou fazer. E lógico que hoje vim trabalhar ideiafix e apelei para os conhecimentos exemplares da minha amiga Elis para descobrir onde comprar pasta de romã.
Foi praticamente impossível encontrar qualquer menção no Google. Primeiro, vieram referências a umas pastas suspensas da marca Roma e depois às melhores "pastas di Roma", já que o acento não fez a menor diferença na busca.
Idiossincrasias do Google à parte, a Elis me indicou a loja Maxifour, no Brás. Já tinha comprado pão árabe dessa marca e é muito bom, fiquei toda animadinha. Mais um antro de perdição indicado pela Elis, não bastasse a Casa Flora.
E não é que os caras têm uma filial em Higienópolis? E não é que eu justamente tinha combinado de almoçar no Shopping Higienópolis?
Fui lá e comprei um molho de romã que o moço disse ser o mais indicado para receitas salgadas. Não deve ser a mesma coisa, mas pode ser que sirva. O legal mesmo foi que lá tinha lentilhas vermelhas. Chamam assim, mas são mesmo cor de salmão, algo entre rosa e laranja. Muito, muito lindo! E são escaminhas delicadas, pequenas e fininhas. Ainda não sei o que vou fazer com isso, mas que vai ficar bonito, isso vai.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lágrimas de Portugal

Dia desses estava com meu pai numa grande loja de jardinagem, comprando mudas de ervas para o meu quintal. Do caixa, ouvi a voz rouca da freguesa que cobrava uma encomenda. Voz de anos de Malboro, certamente alguns scotches. Um pouco inchada talvez, acima do peso. Fechei os olhos para lembrar de onde a conhecia.
Quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal

Minha professora de literatura do cursinho. Ainda estudava letras na época, mas para mim era linda, adulta, mulherão. Os poetas portugueses até então tinham sido uma aula maçante na escola, a professora mais interessada em vender pacotes para a Disney nas férias.
Naquela voz que já se insinuava rouca Pessoa e Florbela eram o que havia de mais lindo.
Naquele tempo de tanta certeza, aquela voz me pincelou de tristeza. Efêmera. Voou para voltar muito tempo depois, reivindicar seu espaço.
Alguém me disse que eu tinha uma tristeza de estimação. Logo se arrependeu, pensou me ofender.
Não, não se ofende quem a conhece e sabe do que ela é capaz. Quando se torna uma velha amiga, sabe que não é senhora de tudo. Conhece seu lugar. Só embaixo do tapete é que apodrece e contamina. Bem cuidada nos leva ao outro lado do Atlântico, nos conecta a Pessoa e Florbela, por teias improváveis de versos.
Linda, minha professora. Não sabia que essa semente já estava plantada até ouvir sua voz rouca entre mudas e vasos. Talvez ela também tenha um quintal...

Coisas de menino

Ainda não fui ver o Clint, mas já tenho um Top One 2010 e vai ser difícil superar. Melhor primeira sequência, melhor filme de menino, melhor filme de monstro, melhor filme sobre solidão, infância, e por aí vai. "Onde vivem os monstros" é tão sensacional que esse post vai sair totalmente vazio e tiete, com adjetivos vagos e bobocas. Muito diferente do filme, que é a adaptação literária mais incrível que já vi.
O grande drama dos filmes adaptados de livros é fazer caber em duas horas o que geralmente renderia uma novela de vários capítulos. Sou bem fã de adaptações de livros, não faço questão de exclusividade em relação à minha imaginação. Mas nesse caso um livro infantil praticamente sem palavras (nem por isso sem conteúdo) se transformou em uma adaptação sensível e profunda, com uma história praticamente igual, mas com um desenvolvimento brilhante.
E o que é aquela primeira sequência? Não tenho ideia de quanto tempo dura, me pareceu que não passou de um minuto - e você já sabe tudo sobre o menino. Quer saber o que é ser menino? Quer saber o que é testosterona? É aquela descida de escada, mais emocionante do que qualquer cena de ação de carro capotando ou mundo acabando.
O que me faz lembrar de dois outros filmes recentes que gostei, mas que me irritaram deveras com esse espírito destrutivo insuportável que a cultura americana cultiva. Primeiro, a animação "UP". Por que será que até um filme em que o mocinho tem 80 anos e o vilão uns 110, se fôssemos exigir um mínimo de coerência, tem que ter destruição em massa? E não é qualquer destruição: são esqueletos e esqueletos de animais pré-históricos colecionados pelo vilão, um museu arqueológico em plena selva amazônica. E parece muito meigo levar a casa de balões até o lugar onde a mulher gostaria de ter ido, mas aquilo não é uma pilha imensa de entulho? Em cima de uma cachoeira sensacional? Tô longe de ser ecochata, mas vamos e venhamos...
O outro filme é "Avatar". Nem vi em 3D, mas fiquei maravilhada com a direção de arte. A história pode ser batida, alguém comparou com Pocahontas. Tem algumas sacadas incríveis, as cores, aquela árvore, lindo. Mas que saco aquele monte de soldados armados até os dentes... Tão chato quanto coberturas da CNN das guerras idiotas que os americanos fazem por aí. Não que não seja realista, claro que é. O filme tem sua lição e tal. O que é muito mala é esse ser o modelo de diversão possível. Se não houver destruição em massa (Deus abençoe a computação gráfica), não é divertido?
Acho que sempre detestei essa coisa de destruir tudo. Até em desenho animado. Deve ser coisa minha, né? Eu é que não entendo esse tipo de menino.

Lepidópteros e coleópteros

Estou aqui numa pesquisa louca sobre a vida da autora Lúcia Machado de Almeida, para escrever um texto biográfico sobre ela para o site de uma editora. Não acho mais do que 20 linhas do mesmo texto, requentado, que pula da publicação dos primeiros textos na adolescência para a morte em 2005. Não tem uma biografia decente.
Puxa, o que seria da minha vida de leitora sem "O caso da borboleta Atíria" e "O escaravelho do diabo"? Imagine, o "Escaravelho" foi escrito em capítulos na revista O Cruzeiro, em 1956! E as "Aventuras de Xisto"? Desde aquela época adoro besouros, borboletas e pastel de queijo.
Tive ainda o privilégio de ter uma prima que trabalhava no Museu de Zoologia da USP, bem nesse período de leituras desenfreadas da coleção Vaga Lume. Ela era responsável por cuidar de coleópteros - ovos, larvas, pupas e adultos. E nas férias eu ia para o trabalho com ela e ficava ali, no porão do Museu, observando aqueles insetos lindos, coloridos.
Não tenho mais os livros, doei para uma biblioteca pública, mas fiquei morrendo de vontade de ler de novo. Obrigada, Lúcia, onde quer que você esteja!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pesar

Choque do presságio
Começo, meio e fim.
E não se fala mais nisso.

Dói

Em outro plano
Contemplo
Atordôo

Buraco de jade
Lagoa de sapo

Saudade, pântano
Desejo, lodo

Devia ser proibido dormir sem beijo de boa noite

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Fome de possíveis

Quando eu não podia, eu queria.
Agora eu posso e não sei o que quero.
Não quero férias.
Não quero ficar em casa sem fazer nada (já é o que estou fazendo agora...).
Quero passar um mês entre leões na África.
Conhecer a Europa e o Oriente.
Estudar hotelaria, roteiro e culinária ayurvédica.
Fazer qualquer trabalho sem penso.
Quero uma nova rotina.
Depois de tanto tempo vivendo o imediato, acumularam-se os quereres.
Como me aconselharia o autor do "Tratado de culinária para mulheres tristes", nada a fazer.
Só me resta tomar um copo de água.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Motivos para agradecer

Este ano sou só gratidão. Não sei se aconteceram mesmo tantas coisas boas, mas certamente foi com olhos de alegria e pertencimento que vi este ano. Motivos não faltaram:
- depois de oito anos, minha empresa finalmente deu mostras de que pode não ser uma ONG ou uma instituição sem fins lucrativos. Ainda não estamos praticando a mais-valia, mas a relação custo x benefício melhorou horrores;
- a cautela talvez dissesse para não tocar no assunto, mas como eu e ela não fomos feitas uma para outra, tive um namoro fulminante, enlouquecido, mas fui feliz como nem me lembrava mais que podia ser. Vieram lembranças que eu não lembrava, ficaram outras que vou lembrar. Pronto, falei;
- conheci pelo menos mais dez pessoas novas que não sei se vou ver de novo, mas que poderia ver todo dia ou nunca mais. Não é que tanto faz: é que as pessoas passam e ficam, e é assim mesmo;
- reencontrei outras tantas, me afastei de quem não estava na mesma conexão;
- aprofundei laços e o círculo de mulheres se expande e abraça o mundo e me abraça sempre que preciso;
- ganhei dinheiro fazendo sopa, pessoas se sentiram quentinhas no inverno e eu guardei meu primeiro dinheiro em muitos anos fazendo uma coisa que me dá muito prazer: cozinhar;
- meu quarto de hóspedes foi deliciosamente ocupado por amigos de outros estados e espero continue sendo;
- reformei a sala, meu quintal agora é laranja, tenho uma nova cortina cor de rosa e isso significa que minha casa tem novas luzes insuspeitadas...
E a lista vai embora. Então, eu agradeço!