segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Desapego

Cada decepção, uma faxina.
Sapatos para o conserto, roupas doadas.
Lustre daqui para lá, mais luz no escritório, penumbra na sala.
O mofo do muro, expulso: demãos de laranja imperial.
Vaso para a trepadeira, rede sob um caramanchão de alamandas roxas.
Rosinhas vermelhas não cabem em si.
Volta a cortina abóbora, que vai com o edredon novo de flores turquesas e amarelas.
Encho a casa de cores, deserdo meus tons de cinza.
Falta parar de chover.
Falta o céu azul.
Falta.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Que dia...

Desde que o mundo é mundo, as pessoas tentam fazer conexões entre as coisas para tornar a vida mais previsível e evitar o sofrimento. Então se de manhã você acorda morrendo de vontade de chorar, e chora mesmo pra valer, talvez devesse pensar: hoje vai ser foda. Aí você prepara o espírito, ou inventa alguma história para não ir trabalhar. Mas como não é difícil eu acordar chorando, eu que sou de Oxum (ou quero ser), muitos dias seriam foda se essa fosse a conexão.
Deve estar havendo outra conjunção astral hoje. Amigos se desentenderam (e eu no meio), pessoas que resolveriam coisas simplesmente não deram o ar de suas graças, notícias de outras brigas e desentendimentos, doença, erros. Credo! Credo! Credo!
Vou tomar um sorvete e me enfiar debaixo da cama até passar essa zica.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Assim, assado, alhures

Se tem coisa que eu admiro é essa constância das pessoas. Leio blogs em que as pessoas sempre falam do mesmo assunto. E viram especialistas. Escrevem sobre seu tema e postam coisas complementares, mas sempre sobre o mesmo tema.
Puxa, seria incrível.
Mas assim não sei.
Devem ser os múltiplos olhos de Argus da minha borboleta, que não param de olhar para todos os lados.
Já contei que tem uma borboleta chamada Lysandra bellargus, né? Ela é azul-lindíssima por dentro, e por fora tem dezenas de olhinhos escuros. Bellargus se refere a Argus, o monstro de mil olhos da mitologia grega. Que, assim como eu, tudo vê, nada sabe.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pessoas

Se eu fosse imaginária
Queria ser um heterônimo
De Fernando Pessoa

Seria aquela
que fala de gente
Que vê nas pessoas
o encanto
que Caeiro descobre
nas flores
e nas réstias de sol

Diria
que não acredito
em Deus
porque nunca o vi
Mas que acredito
nas pessoas
que acreditam em Deus
porque as vejo

Eu veria em cada uma
essa essência
que Deus quis que Caeiro
visse nos montes e lagos

E muito provavelmente
– eventualmente –
flertaria com a morte e a tristeza
como Álvaro de Campos

Afinal, a tristeza existe
no coração das pessoas
que vivem intensamente
como as pessoas
de Pessoa

domingo, 15 de novembro de 2009

Elegia

Ressuscitei esses dias um CD do Caetano (Cinema Transcendental) que tem essa música.
Engraçado que esta semana entrevistei o poeta Ferreira Gullar para a revista Casa Claudia Luxo (na próxima edição, quatro materinhas minhas que adorei fazer), responsável pelo Manifesto Neoconcreto.
Os neoconcretos - Helio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Amílcar de Castro e outros - questionavam a matemática e o racionalismo dos concretistas, propondo uma arte que despertasse os sentidos.
Mas é do concretista Augusto de Campos a letra dessa música, uma das melhores definições de mulher que conheço, sensível com um toque impagável de safadeza. Essa mão, hummmmmmm...

Elegia
(Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos)

Deixe que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo
Entre

Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério

Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo

Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes

Como uma encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Outra lição

A lição de ontem foi um exercício futurológico. Agora a gente teve de escrever para nós mesmos velhinhos. Aí ficou assim:

"Cara eu mesma velhinha,
É engraçado, sabe? Sua imagem para mim é nítida. Cabelos sem tinta. Cachos azulados, talvez, com essas rinsagens antigas. Vai ser bem legal ser uma velha de cabelo roxo. Um pouco mais gordinha, claro. Esses culotes não vão sumir.
Já pensei tanto em você sozinha, numa casa gostosa, cheia de amigos de todas as idades, que é difícil conciliar essa ideia com meus próprios desejos. Porque hoje tenho vontade de ter uma família. Você sabe que filho sem pai não é comigo. Para mim, filhos sempre foram a consequência de um casamento feliz.
Não que eu tenha a ilusão do pra sempre, como eu te disse quando criança. Sei que a vida dá voltas e hoje tenho alguma experiência nisso, para o bem ou para o mal. Mas o começo precisa ser muito bom, você não concorda? Um pouco de segurança, um conforto de saber que ao seu lado há alguém para o que der e vier.
Talvez quando você estiver aí cozinhando e tocando a nossa hospedaria, ou algum outro negócio, você imagine que eu tenha deixado escapar oportunidades. Que no fim a gente daria um jeito. Afinal, foram tantas coisas que fizemos sozinhas, com essa independência que tanto assusta as pessoas.
Me desculpe se você se sente só. Espero sinceramente que ainda dê tempo de encontrar alguém que me faça sentir a segurança de que preciso. Eu já senti isso, você sabe. E confio ainda vou sentir de novo. Torça por nós. Assim, vou poder criar uma nova imagem de você, ainda fazendo um monte de coisas, mas cercada de netos e bichos.

Com carinho,

Eu, hoje"

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lição de hoje

Hoje era pra fazer uma carta pra gente mesma criança que contivesse as seguintes palavras: vela, guarda-chuva, lentes, um laço e durinha. Eu, muito obediente, fiz do jeito que mandaram, com as palavras na ordem:

"Cara mim mesma pequena,

Se tem uma coisa que você pode ficar tranquila desde já é que palavras não vão lhe faltar. Você não vai ser dessas que precisa acender vela antes de prova. Pode contar com isso. As palavras vêm.
Mas nem sempre na hora que você precisa delas, é claro. Afinal, palavras são que nem guarda-chuva. Por mais que se seja precavido, quando menos se espera ele ficou em casa, todo encolhido, enquanto a chuva desaba lá fora.
Pode contar, então, com a imprevisibilidade das coisas. Assim como não existem fatos, apenas versões, também há sempre lentes que aumentam e diminuem o que seus olhos acham que veem.
Por mais que você tente aprisionar a verdade, é bom que se diga: ela sempre se desfaz como um laço de fita. E pode reparar: mesmo que a gente refaça o laço, ele nunca fica exatamente igual ao outro.
Ah, tem outra coisa importante. Papai Noel existe. Coelhinho da Páscoa também. Mas pra sempre não tem. Não sei quem foi que inventou o pra sempre, mas não vou enganar você: isso não existe mesmo.
Então não precisa ficar sempre assim, durinha. Pode relaxar. Isso. Descansa. Melhor já ir treinando.
A gente se vê,
Você maiorzinha"