quarta-feira, 19 de março de 2008

Em prol do silêncio

Se tem uma coisa que acaba com um filme é uma trilha ruim. No Brasil, tenho a impressão de que quase todo diretor de cinema to be tem um amigo músico to be. Então quando o diretor vai fazer um filme, já está implícito que seu amigo vai fazer a música. Mesmo quando o filme não precisa de música alguma. O resultado costuma ser uma música incidental constante, irritante, especialmente nos curtas.
Ainda tem as trilhas que tentam cutucar a emoção do espectador, criando clima de novela. "Agora ri", diz a trilha. "Agora chora." É um alívio quando um filme tem músicas boas e os silêncios fundamentais. Uma das melhores trilhas de filme brasileiro pra mim é a do "Houve uma vez dois verões", do Jorge Furtado. Tem várias bandas gaúchas fazendo uns covers sensacionais. A do "Meu nome não é Johnny" é bacana também. E o filme tem silêncios, ufa.
Mas trilha ruim não é privilégio nosso. Ontem assisti "Simplesmente Martha", que é o filme original alemão que virou a versão americana "Sem reservas", com a Catherine Zeta-Jones. Jesus alado! Que música medonha! Começa um pianinho até que razoável que vira um solo de sax digno do Kenny G. Cada vez que o sax começava, dava um arrepio de vergonha alheia. O filme tem uma mão mais leve na direção, os atores são ótimos, a transição da personagem principal é mais sutil. Mas a trilha... de matar.
Vi "Sangue Negro", do PTA, no domingo e achei a trilha meio pesada. O começo do filme é sensacional, devem ser mais de 20 minutos sem nenhum diálogo. Aí a música funciona bem. E como o filme é do PTA, não é uma trilha convencional. Mas tem horas que fica alto demais, trágico demais. Fiquei reparando na imagem pra ver se teria a mesma força sem a música por trás. Acho que não teria não.

terça-feira, 18 de março de 2008

Mais vale um gosto

Sim, eu atraio pessoas peculiares — para não dizer que sou pára-raio de loucos, como algumas amigas gostam de me chamar.
Estava lembrando hoje de uma figura que trabalhou em casa. Ela adorava cinema e televisão e ficou louca quando soube que meu ex trabalhava com cinema. Ela era uma pessoa de opinião.
Naquela época, a Record exibia uma novela com o Mauricio Mattar. Ele era um mega empresário, que numa linha cruzada conversa por acaso com uma presidiária e os dois se apaixonam (!). A empregada do Mauricio Mattar era uma atriz amiga nossa, e na novela se chamava Matilde. Quando contamos para a moça que conhecíamos aquela atriz, ela ficou louca. "Nossa! A Matilde? É minha atriz preferida! Ela e o Seu Cocada." Seu Cocada, para quem não se lembra, era um personagem absurdo de um programa de humor desses de quinta catigoria, interpretado pelo Rony Cócegas.
Cinematograficamente, a moça gostava basicamente de filmes de terror. Seu predileto era "Chuck, o Brinquedo Assassino", que ela carinhosamente tinha apelidado de "o Boneco". Como o marido dela trabalhava numa locadora, ela tinha conseguido uma cópia do filme, que sacava sempre que a novela estava chata. Quando ela chegava de manhã, o Paulo perguntava: "Então, o que você assistiu ontem?" Ao que ela prontamente respondia: "Ah, a novela estava chata, então vi o Boneco".

segunda-feira, 17 de março de 2008

Casa vazia

Pensei que hoje ia fazer calor e eu ia abrir as janelas, que era a única coisa de que sentia falta com a galera morando aqui em casa. Mas agora Laurence e gatas foram embora e a casa está assim, vazia. E eu me pego prestando atenção na porta do quintal ou da sala, pra ver se alguém não escapuliu.
Levei as três ao aeroporto. A pobre Chiquinha, num cesto rosa-barbie, totalmente zureta. E a Caliope ainda meio dopadona do tal do remédio pra dormir, embarcada com as malas. Foi triste, triste ver as três indo embora. Realmente, a gente acostuma com as coisas mais incríveis.
Bon voyage, meninas!

quinta-feira, 13 de março de 2008

A vida é feita de som e de culpa

Uma conversa furtada no café da ruelinha do ABN, aquele beneficente. Uma atendente diz para a outra:
— Uma amiga minha, sabe? Trabalha no Amor aos Pedaços. Na véspera do Natal, ela resolveu pintar a unha de vermelho de manhã, porque ela ia sair às 10 da noite. Cê sabe que quem trabalha com comida não pode pintar a unha, né?
— Sei.
— Então, daí uma cliente viu e falou isso pra ela, que ela não podia pintar a unha.
— Hum.
— Aí ela respondeu: "A senhora vai passar o Natal com a sua família?" E a mulher, claro, respondeu que sim. "E a senhora vai se arrumar, fazer o cabelo, a unha?" Claro, a mulher respondeu. "Então. Eu também", ela falou. "Mas só saio daqui às 10, né? Então tive que fazer a unha de manhã."
Segundo a atendente, a mulher ficou tão sem graça de ter peitado a vendedora que deu 50 pilas pra moça ir fazer o cabelo.
No fundo, a mulher não tava errada. Ninguém morre se passar o Natal sem pintar a unha de vermelho. E em qualquer lugar sério, quem trabalha com comida não pode pintar a unha, porque esconde a sujeira, porque pode descascar no prato alheio.
Mas a criar caso realmente é um problema sério neste país.

terça-feira, 11 de março de 2008

Gaydar off

Domingo, final de tarde, depois da praia, é hora do Bailinho. Uma baladinha muito simpática em Ipanema. Dá de um tudo e a música é uma mistureba só, do jeito que eu gosto. O DJ é um ex-ator mirim da Globo, que manda bem. Toda semana ele convida uma celebrity pra criar um set. Neste domingo, foi a Luana Piovani. Depois tocou Patife, no esquema Bailinho. Menos drum'n'bass, mais musiquinhas dançantes. O cara é muito pro.
Fato é que me acabei de dançar, mas percebi que por lá meu gaydar não funciona. Todo mundo esbanja saúde, todo mundo é malhado, queimado de sol. Eu olhava pra um e pensava: hummm, acho que esse é hétero... E logo em seguida: hummm, mas e se for? Espelho, espelho meu: será que eu aguento alguém mais vaidoso do que eu? Difícil. Vou continuar compartilhando meus xampus com meus amigos gays de verdade, que eles merecem. Higiene é fundamental, mas pra homem um xampuzinho 2 em 1 tá mais que bom, né?

sábado, 8 de março de 2008

O vagão rosa

Coincidências não existem, certo? Bem, ontem de manhã li um post muito bem escrito e argumentado no blog Duas Fridas, de duas jornalistas cariocas, questionando a criação de dois vagões dedicados às mulheres no metrô do Rio.
Entrei por acaso, vinda de outro blog, li, parei pra pensar. É um questionamento importante sobre essa idéia de segregar as vítimas pensando em protegê-las. Não vou nem me estender, porque a argumentação da Helê é tão boa que não carece. Vai lá e lê que compensa.
Vim pro Rio no mesmo dia, pro lançamento do Guia de Festivais, que eu orgulhosamente editei, e depois fomos jantar na Lapa, num restaurante tradicionalíssimo chamado Nova Capela. Conversa vai, conversa vem, comentei que tinha tomado o Metrô e a Beth lembrou dos tais vagões rosa. Claro que na hora citei o post e disse como achava um absurdo essa história, como nunca me senti contemplada pelo Dia da Mulher, como acho que esse tipo de coisa reforça a vitimização.
A Zita argumentou que isso é um paliativo, mas na prática pode ajudar quem realmente se sente mal. Enfim, também. é verdade, mas realmente o problema é mais embaixo, é falta de respeito humano, é selvageria. Prova disso é que na sequência todo mundo começou a contar histórias. Estávamos em seis mulheres e todas tinham alguma história de assédio para contar. Não eram só gritos de "gostosa" na frente da obra (o que também é péssimo e me deixa puta da cara). Eram histórias de homens de pau pra fora, de encochamento, de masturbação explícita.
O primeiro pinto que eu vi foi assim, de um sujeito que me parou na rua, dentro de um carro, fingindo querer uma informação. Quando me aproximei, lá estava o bicho pra fora. Eu devia ter uns 12 ou 13 anos. Não foi a última vez, tenho várias outras histórias. Alguém discorda que isso é grotesco? Está na hora de criar caso. Decidi que vou reunir essas histórias. Ainda não sei o que vou fazer com isso. Mas não dá pra deixar barato.

Certezas que se vão

É engraçado pensar em como tinha tanta certeza de tudo e como hoje acho tudo relativo, impreciso, improvável. Quando prestei vestibular no segundo colegial, o tema da redação era, basicamente: "você acha que tudo é relativo? argumente". A prova trazia um quadro de Magritte com um cachimbo e uma frase: Isso continua a não ser um cachimbo.
Depois vinha um verso do Pessoa que dizia:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
Achei muito fácil dizer que sim, tudo era relativo, e optei por uma argumentação cética dizendo que não, tudo aquilo era muito poético, mas a vida é dura para quem é mole. Estava no segundo colegial, podia trucar. Deu certo, convenci, e passei em sânscrito, que era o que a gente prestava pra treinar naquela época.
No ano seguinte prestei de novo, entrei em jornalismo, mas não me lembro do tema da redação. Nunca esqueci daquela, porque a questão que nunca me abandonou. A vida é o que é? Ou tudo é relativo?
Na verdade, ainda não sei. Tem coisas que são, ou aparentemente são, daqui a pouco não são mais, e assim vai. Não tem grandes dramas, é só esquecer de querer ser tão coerente e assumir a esquizofrenia.