domingo, 20 de abril de 2008

Mergulhar é preciso

Meio sem querer, meio de propósito, estou cercada de histórias de pessoas que tiveram um ponto de virada, uma crise profunda e dali reinventaram suas vidas.
Minha vida não é uma droga. Sob todo e qualquer ponto de vista objetivo, tá tudo ótimo. Faço o que gosto, tenho grana suficiente (mais do que a média, nunca sobrando), tenho amigos (muitos) sensacionais. Mas a imagem que me vem à cabeça agora é a de que fui até o fundo do poço, bati lá embaixo, e voltei machucada e sem ar, tentando acima de tudo sobreviver. Beleza. Tô viva.
Agora, parece que tenho que voltar lá, de uma forma controlada. Vestir uma roupa de mergulho e ir procurar alguma coisa que me escapou. Tenho medo de poucas coisas e o que vou encontrar no caminho, ou mesmo lá embaixo, não me dá medo. A sensação de ter de mergulhar é que não me atrai. Pensar em respirar por um troço na boca tendo muita água em cima é algo que nunca quis experimentar.
Bom, voltando às histórias. Primeiro foi "Comer, rezar, amar", o livro da jornalista que tirou um sabático depois de uma separação sofrida. Agora estou lendo "Julie & Julia", de uma americana que surta e resolve preparar todas as receitas da Ofélia americana e escrever num blog. O livro é mala, não estou achando graça nenhuma, talvez o blog fosse melhor. Mas o fato é que a tipa surtou e passou um ano fazendo receitas cheias de manteiga e creme de leite, enquanto se via às voltas com canos que vazavam ou entupiam, e tirando sarro do próprio emprego, que era numa repartição pública voltada para ajudar parentes das vítimas do 11 de setembro. Não exatamente o emprego do qual eu tiraria sarro, mas enfim.
E ontem mais assunto pras minhas divagações. Fui assistir "Irina Palm", que mais ou menos tem o mesmo tema. Uma cinqüentona inglesa, louca pelo neto, quer arrumar dinheiro pra ajudar o filho a levar o menino para um tratamento na Austrália. Durangos classe média, já gastaram fortunas com o menino e não têm mais de onde tirar grana. Meio desesperada, mas com toda a fleuma inglesa, ela vê um anúncio de emprego num puteirinho fuleiro em Londres. O emprego era de punheteira - o cara mete o pinto num buraco e a mulher, do outro lado, bate uma. O dono do puteiro vê potencial nas mãos macias de Maggy e decide lhe dar uma chance. Em pouco tempo, ela vira a maior punheteira do lugar e cai nas graças do sujeito. O engraçado é que a atriz é a Marianne Faithfull, a cantora drogadita da década de 70, que teve um caso tórrido com o Jagger.
O filme é pra ser um drama, tem cenas hilárias, mas achei revelador. Nada literal, porque bater punheta, definitivamente, não é uma das minhas especialidades. Mas alguma outra coisa além da minha profissão eu devo saber fazer. E, se não for pedir muito, preferia continuar não tendo que entrar pra nenhum rebanho.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Se Anália não quiser ir, eu vou só (na Virada Cultural)

Falta só uma semana para o momento anual mais importante da paulistanidade. Se existe alguma coisa que me dá alegria de viver, que me faz esquecer as palhaçadas da vida cotidiana e achar que, vá lá, existe alguma coisa que vale a pena, é a Virada Cultural.
Para uma pessoa como eu, que nasceu às margens do Ipiranga como a Independência (não vamos entrar em detalhes históricos patéticos, por favor), e que ama esta porra desta cidade, não existe evento mais incrível. Milhares de pessoas nas ruas do Centro, correndo de lá para cá, se encontrando na rua, tendo a oportunidade de ver dezenas de shows e espetáculos grátis, tudo ao mesmo tempo.
Ano passado encontrei meu amigo Walter na Praça Dom José Gaspar, onde vários pianistas tocaram para uma platéia de casais sessentões, devidamente acomodados em cadeiras. O som de ótima qualidade, a ambientação, tudo. Walter mora na cobertura de um prédio na Duque de Caxias, em frente à Sala São Paulo. Pode haver melhor companhia para percorrer as ruas do Centro do que um verdadeiro local?
Depois do pianinho, vimos um trecho de espetáculo infantil. Eram oito da noite e muitas crianças brincavam com os palhaços. Depois, percorremos as travessas que foram destinadas à música eletrônica e ao rock. Demos um rolê pela Sé, antes do show que deu briga, atravessamos o Viaduto do Chá - e passamos pela fila monumental para as atrações do Municipal.
Descemos para o Anhangabaú pra ver Clube do Balanço e Erasmo Carlos, um show incrível, lotado, uma lua sensacional, aqueles prédios em volta, e o cara emocionado de verdade de estar ali. O Clube do Balanço, que só tocava em boates, nunca tinha visto tanto público, mandaram bem.
Paramos para reabastecer no Ponto Chic do Paissandu, ali no fundo das Grandes Galerias. Tava lotado, mas logo um amigo do amigo nos colocou pra dentro e pudemos comer um bauru. Aí atravessamos a Praça da República, cheia de grupos de teatro e com uma iluminação que eu nunca tinha visto. A galera sentada no pé das árvores, batendo papo, parecia uma praça de interior.
Chegamos então no baile da saudade/gafieira armado na esquina da Vieira de Carvalho com a rua Aurora, lugar do coração onde trabalhei ano e meio. Um ambiente de boate foi montado bem no cruzamento, com chão quadriculado preto e branco e globo de espelhos. Tinha acabado o show do Cauby com a Angela Maria, mas logo começou uma banda de salsa cubana, do sobrinho do Ibrahim Ferrer, um dos velhinhos do Buena Vista Social Club. Casais gays e héteros dançavam juntinhos, uma galera mais nova pulava em volta do tabladinho, o clima tava muito bom.
O show acabou quase quatro da manhã. Voltei de metrô com um pessoal que conheci ali, morrendo de feliz. No dia seguinte, ainda fui no Parque Vila-Lobos duas vezes assistir concertos, que rolaram o dia inteiro.
No jornal de segunda-feira, tudo que tinha saído era a briga que deu no show dos Racionais. Soube por uma amiga jornalista de uns bastidores que mostram bem como funciona a "coisa". Praticamente nenhum veículo de imprensa cobriu o evento. Vi vários fotógrafos de jornal, mas não tinha mesmo equipes de TV. Parece que uma jornalista que estava com a própria câmera gravou a briga e foram essas as únicas imagens existentes do evento. É claro que quem não foi achou que a noite foi uma grande pancadaria.
No dia seguinte, um amigo meu que também apostou no evento escreveu um e-mail sobre a noite dele, que foi parecida com a minha. Azar de quem tem medo, uma lástima. Só vão saber da parte ruim, se existir. Se não acontecer nenhuma tragédia, ninguém vai saber de nada.
Mas vamos ao que interessa: este ano tem a Cesária Évora, várias cantoras que eu gosto no palco das meninas, vai ter a gafifa de novo na Vieira, o pianinho, dança, mais um monte de coisa. No palco do rock, a banda mais paulistana de todos os tempos, Ultraje, a galera do rap tem Afrika Bambaata no Palácio das Indústrias. Nem vou falar mais que tem a programação completa no site. Mas tenho que puxar a sardinha pro nosso lado e dizer que o pessoal do Festival de Curtas armou uma programação sensacional de curtas, que vão ser exibidos numa mega tela em frente ao Municipal. Meio que o que rolou na abertura do 15º Festival, quando as pessoas ficaram vendo filmes sentadas na escadaria, que funcionou como uma arquibancada.
Bom, eu chego sábado no final da tarde, sem hora pra sair. Afinal, a Orquestra Imperial só toca na tarde de domingo, né?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

One is the loneliest number

Ainda em fase de digestão de My Blueberry Nights, do Wong Kar Wai. Não consigo começar por nada menos metido do que o fato de ter achado que ele fez o filme pra mim, então vou precisar processar um pouco mais.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Tudo que é muito, é demais

Raquel, sempre ela, me levou pra ver o Cirque du Soleil. Achei um tantinho de Fellini ali e gostei. Meio macabrinho nos figurinos, me pegou mais do que o espetáculo anterior. Tinha um quê de circo freak, duas meninas chinesas contorcionistas pareciam as siamesas de Peixe Grande , do Tim Burton, uma aflição.
Os palhaços, pra variar, custaram a me arrancar um risinho nervoso. Tem interação com a platéia eu já me encolho e tremo. O pobre homem pinçado do meio da platéia perdeu o rumo, não achava o lugar de volta, teve de ser resgatado pela mulher em meio às gargalhadas do povaréu, de que povo não tinha nada. Engraçado ver o desfile de grifes pra ir ao banheiro de obra montado ao ar livre.
Eu admiro, acho incrível o que aquelas pessoas são capazes de fazer com o corpo, as roupas, as músicas. É lindo. Lindo demais. Perfeito demais.

Festa do pijama

Semana passada minha querida Raquel fez aniversário e mais uma vez nos reunimos na casa dela, onde sempre acontecem as festas mais gostosas. Vez por outra, aparece a Cris - no primeiro ano de faculdade éramos nós três, inseparáveis. Cris apareceu e, como diz a Raquel, quando nos juntamos as três sai faísca. Não coube toda essa fagulhada numa noite só, estamos em abril, tava virando são joão.
Pra continuar a celebração dos nossos encontros esporádicos, resolvemos fazer uma festa do pijama. "Xi, gente, fim de semana não posso que tenho espetáculo na hora do almoço", disse a Cris. É bom que se diga que ela é atriz e diretora de teatro, fugiu logo do jornalismo, assim como a própria Raquel. Ótimo.
Então quarta-feira saio de casa de mala e cuia, travesseiro e cobertor. Passei no mercado que a cozinheira sou eu, peguei a Cris e lá fomos pra casa da Raquel. Fiz uma sopinha de mandioquinha com alho-poró e nos pusemos a assistir Shortbus, filme que já comentei aqui. Adorei de novo, elas também gostaram. Falamos, faiscamos, comentamos o filme. Fomos dormir às 3 e tanto, exaustas. Faltou só a noite estar clara, pra gente mostrar Saturno pra Cris.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Qual é o seu sonho?

Alma portenha

Semana passada minha aula de variedades lingüísticas e cultura dos países que falam espanhol foi sobre a Argentina. A professora, argentina que vive no Brasil há cinco anos, fez várias comparações entre a alma argentina e a brasileira, com muita ponderação.
Pra resumir muito mesmo, os argentinos (especialmente os portenhos) têm esse espírito mais belicoso e uma vontade incontida de sofrer, além da arrogância e da auto-estima quase risíveis de tão grandes. Eles têm o tango, nós temos o samba. Eles acham que lá tudo é melhor, nós achamos que tudo que é estrangeiro é melhor. A conclusão geral foi que os argentinos precisam sair de lá pra descobrir que eles não são o melhor país do mundo, e nós precisamos sair daqui pra descobrir que somos muito melhores do que pensamos.
Eles têm Cortázar, e Cortázar é isso:

Instruções para dar corda no relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume de um pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

(em Histórias de Cronópios e de Famas)