quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Por uma balança comercial Brasil x Argentina mais equilibrada

Logo que cheguei aqui, nossa nova presidente estava na área. A primeira viagem oficial de Dilma foi essa visita a Cristina Kirchner. Quem diria que um dia veríamos os dois maiores países da América do Sul com presidentes mulheres. Realmente, críticas a parte, eu fico feliz.
Mas voltemos às relações comerciais Brasil x Argentina. Um dos temas das conversas das duas excelências foi o desequilíbrio da balança comercial em favor do Brasil. Claro, a indústria argentina parou no tempo e agora a maioria dos produtos são importados. Não só do Brasil, mas muito da China. As vitrines da Ave. Santa Fe não me deixam mentir.
Tendo em vista o incremento nas relações bilaterais entre os dois países, apresento a seguir algumas sugestões de produtos alimentícios que podem ajudar melhorar o equilíbrio da balança comercial em favor da Argentina.
- Manteiga La Serenisima - tem um gosto bom e não fica uma pedra na geladeira. Dá pra passar no biscoito em seguida, sem espatifar.
- Tomate pelado Salsati La Campagnola - muito melhor do que vários italianos que já comi. Não tem casca mesmo e os tomates são mais vermelhinhos, fica pronto mais rápido e é mais saboroso.
- Grão de bico em lata La Campagnola - o cheiro já é mais intenso do o Bonduelle, que também é bom mas custa caro. Deve ser ótimo para fazer homus, mas como não tenho apetrechos não pude experimentar.
- Alfajores Cachafaz ou Abuela Goye - o primeiro é vendido em qualquer kiosko, o segundo só tem uma loja na Galeria Pacífico e outra na Florida, porque é original da Patagônia. A grande vantagem, para mim, é que são de chocolate meio amargo e bom. O Abuela Goye, vejam vocês, já existe num shopping chiquérrimo de Salvador, mas sou favorável a incentivos fiscais para a instalação da rede em São Paulo.
- A carne... Ah, isso todo mundo já sabe. Nesse caso, sou favorável à aquisição de matrizes argentinas ou de reprodutores de altíssima estirpe para uma substituição lenta e gradual do nosso rebanho zebu pelos angus locais. Tudo bem, corremos o risco de ver o preço do cupim ir às alturas, mas acho que é um risco a se correr.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Giardino dei Taiocchi

Um dia achei que sabia história da arte. Estudei duas vezes, no colégio e na faculdade de design. Li muita coisa também. Mas cursos genéricos de história da arte são como as aulas escolares de história: o programa sempre atrasa e nunca se chega aos dias atuais.
Esse sempre foi um assunto que me fascinou. Em um momento da minha vida achei que precisava explorar uma forma diferente de expressão, manual, plástica, pois nem me passava pela cabeça que escrever pudesse ser uma expressão criativa para mim. No fim, deixei pra lá.
Até agora, não consegui liberar o cisne negro que existe em mim e confesso que talvez gostasse de ter a experiência visceral da personagem do filme (assisti ao filme ontem, ainda estou processando).
Enquanto isso não acontece, vou levando com o racional mesmo, que apesar de complicar minha vida de várias maneiras e de me manter a uma distância pouco saudável do meu corpo, é o que se pode arrumar no momento. Pelo menos hoje sei que escrever é minha forma de expressão, e o que sai vai além das matérias jornalísticas.
Mas se não posso fazer artes plásticas, estudo.
Já disse que não resisti e me matriculei em um curso sobre mulheres artistas contemporâneas. Estou conhecendo trabalhos sobre os quais nunca tinha ouvido falar. Sinto-me deveras ignorante, mas o que se há de fazer além de comemorar a capacidade de maravilhamento que ainda me resta, não é mesmo?
Vejam isso. É a obra da artista Nikki de Saint Phalle. Um jardim com esculturas gigantes que representam as 22 cartas do tarô. Algumas são negras gorduchas, as "Nanas", que também existem sempre em tamanhos enormes em várias partes do mundo.
A artista é francesa e viveu nos Estados Unidos, o Jardim do Tarô está na Toscana. Antes de começar esse Jardim todo colorido e feliz, ela ficou conhecida por seus happenings de tiro. Fazia quadros e esculturas e depois atirava neles. Eu me encantei pelas Nanas e pelo Jardim. A maior, que representa a Imperatriz, era a casa dela. Um dia quero visitar esse lugar...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

História circular

A história que a gente estudou na escola mudou. A história da América Latina, a gente nem estudou. Ontem descobri que houve um momento em que a Argentina tinha uma quantidade enorme de negros. Hoje não se vê um. Mataram todos. Esse é um capítulo sobre o qual ninguém fala, que ainda precisa ser reescrito.
A história da arte, porém, já está sendo. O que aconteceu a Camille Claudel não foi uma exceção, mas parece ter sido regra. A quantidade de mulheres artistas ao longo do tempo não é tão pequena quanto aprendemos. Muitas fizeram coisas, mas foram assinadas por pais, irmãos, maridos.
Comprei um livro de reportagens do Eduardo Galleano. Só ouvimos falar das "Veias abertas da América Latina", mas depois descobri os pequenos textos poéticos, lindos, de "O livro dos abraços". Ele poetiza a mitologia pré-colombiana em outro livro, e também episódios históricos. Está tudo girando em torno de histórias, lembranças fortes da minha ida ao Chile, estou reescrevendo minha história ideológica e construindo novos referenciais, menos polarizados, mais pós-modernos, mais latino-americanos.
Eu bem podia ter dez anos mais quando fiz faculdade, devia ter me jogado por aí, ou não, nada disso faria sentido, talvez...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Lições de vida

É um lugar muito peculiar esse delta do Tigre. Fomos de trem, um trem de passageiros desses que a gente nunca usa em São Paulo. Encontramos um amigo local em uma estação no meio do caminho e chegamos à cidade de Tigre. A viagem não leva nem uma hora.
A cidadezinha é a porta de entrada para várias atrações populares - parque de diversões, feirinha de artesanato, praias fluviais - então é bastante muvucado. Mas como o Guille conhece o local, tomamos um táxi-lancha até uma das dezenas (ou centenas?) de ilhotas que formam o delta. É uma paisagem inusitada. De cada braço maior de rio saem vários outros riozinhos. E em cada um deles, uma casa depois da outra, em terrenos grandes e acesso apenas pelo rio. Só se chega de barco. A maioria são casas de veraneio, mas também há gente que mora, claro. A sorveteria é móvel, assim como o mercadinho e o vendedor de gás.
Descemos em uma ilhota chamada Trés Bocas, que tem uma ótima parrilla. Bem em frente ao restaurante, há um posto de gasolina. Depois de nos fartarmos de carne ótima, sentamos em umas espreguiçadeiras de frente para o posto. Todo tipo de barco vinha abastecer, de jet skis invocados até canoas motorizadas. Locais também se movimentam para todo lado com barcos a remo, que resultam em pele tostada de sol e muques consideráveis. Para homens e mulheres.
Comemos um bife de chorizo muito bom e experimentamos o vacío que o Guille pediu. É uma carne mais fibrosa, parece lagarto, mas na hora me veio à cabeça cupim. Fui explicar para ele que era a corcova do boi e ele ficou indignado: "Os bois aqui não têm corcova!"
Ahnn? Como assim?
Ainda bem que minha irmã entende mais de pecuária do que eu, e me explicou que o boi no Brasil é zebu e aqui é angus aberdeen, o que explica porque a carne aqui é tão boa. Vivendo e aprendendo...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Não é pedir demais

Um pouco de falta de rotina não só me faz muito bem. É simplesmente tudo nessa vida. Não que eu consiga viver la vida loca. Durmo cedo, meia noite, uma hora. Acordo cedo, oito no más. Tomo café, almoço, lanchinho, janto. Vou aos dois cursos. Mas não estou sentada o dia todo na mesma bat-cadeira. Uma hora estou na cozinha, na outra no sofá. Bem, são apenas 30 metros quadrados, logo também não há tanta opção.
Mas dou uma saidinha aqui, outra ali. Vou almoçar no bar da esquina, depois compro um pãozinho no restaurante de orgânicos e troco dois dedos de prosa com a dona, que é casada com um dos produtores do CQC e portanto mora mezzo São Paulo, mezzo Buenos Aires.
Levo a roupa à lavanderia. Compro um pouco de queijo e um tomate no mercadinho aqui em frente, quase um empório que tem de um tudo. Posso ir lá a qualquer momento, fica aberto até as 22h, então decido a cada dia o que vou comer, compro o que falta, e faço.
Hoje saiu omelete com presunto, queijo e tomate e uma taça de vinho rosê. Confesso que comprei o que tinha tampa de rosca, porque aqui não tem saca-rolha, e só no caixa descobri que custava só 15 pesos. Ou seja, 5 real. Amanhã poderei constatar com mais acurácia a qualidade do dito cujo, mas por enquanto está me parecendo bem razoável...
Nunca quis ser frila. Nunca achei que conseguisse produzir alguma coisa se não me impusesse uma rotina rígida. Com isso, passei anos trabalhando 12 horas por dia, sem saber o que fazer quando tinha um pouco de tempo livre.
Cansei.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Envelhecer em paz

Minha querida hermanita está por aqui e ontem à noite fomos assistir um espetáculo lindo, sobre as mulheres de García Lorca. Uma cantora, de uns 25 anos, de voz potente, e também bailarina de flamenco, e dois músicos, um violonista e um percussionista. A moça é realmente um show, em um cenário mínimo, com figurinos lindos. Valeu muito.
Achei curioso que o espaço artístico era bem alternativo, com arquibancadas de madeira e até almofadas no chão. E a maioria do público era bem maduro, digamos. Pessoas acima dos 60 anos.
Claro, era um espetáculo de cultura tradicional espanhola, talvez não interesse muito à galera jovem. Mas o que gosto aqui em Buenos Aires é que as pessoas de todas as idades saem para fazer seus programas.
Das últimas vezes que vim, sempre acabei em espetáculos lindíssimos, cercada de pessoas de cabelos brancos. Acho que é mais fácil envelhecer por aqui...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dieta mediterrânea

Salve a imigração italiana na América Latina! Salve a dieta mediterrânea que une São Paulo a Buenos Aires. A comida daqui é exatamente a comida da minha avó. Sempre uma verdura escura cozida, uma saladinha, carne e um carboidrato. Um dia purê, no outro polenta. Nem sempre arroz e feijão. Muita variedade e muitas opções sem fritura, sem cremes, sem frescura. Claro, também é a terra do bife à milanesa com batatas fritas, mas eu passei longe até agora.
Minha primeira refeição feita em casa não foi digna de nota. Além de ter comprado um nhoque pronto no mercado, uma verdadeira heresia para quem já comeu o nhoque da minha avó, ainda estava muito de pé atrás com a cozinha (mínima) e as panelas (encardidas).
Até que vi a frigideira do Oliver, totalmente grudada que nem a daqui. Dei um trampo na parte de dentro, arranquei todo o grude, e começaram a sair coisas melhores.
Um macarrão com atum, abobrinha e almeirão que ficou, modéstia a parte, divino. Hoje saiu polenta com carne moída. Fora de casa, ótimas saladas. Domingo, pedi carne pela primeira vez, "colita de cuadril". Não sei que corte é esse, mas tinha uma gordurinha parecida com a de picanha que achei sensacional.
Só sinto falta dos sucos de fruta. Não sou a pessoa mais fã de frutas do mundo, mas não gosto de refrigerante. Estou comendo pêssegos deliciosos, mas o suco custa o dobro de um refrigerante e quase não tem variedade. Custa até mais caro do que uma taça de vinho... Que acaba sendo uma opção melhor, digamos. Afinal, não deixa de ser fruta, não é?