terça-feira, 16 de junho de 2009

Shit happens

Se existe uma coisa libertadora essa coisa é saber que shit happens. Vai dar merda, mais cedo ou mais tarde. Não adianta achar que está tudo bem, então assim há de ficar.
Comigo, especialmente, se está tudo igual eu mesma dou um jeito de ferrar o esquema. O bom é que depois de tanta merda, os insights ficam mais frequentes. Aí você já saca que a merda tá vindo, e às vezes dá tempo de fazer alguma coisa.
Mas nem sempre. Lá estava eu, reclusa, vovozinha, cozinhando feito louca, inventando as sopas mais exóticas e achando tudo ótimo. Aí encontro um amigo, tomo uma cervejinha, bato um papo ótemo, chego bêbada em casa e entro num site de relacionamento.
Pronto.
Estou me divertindo horrores.
Até a próxima merda.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pelo direito de ser mutante

Acho que a medicina deveria tratar todos os seres humanos como mutantes. Vá lá que ainda não apareceu ninguém azul com escamas, nem com pele de diamantes, sequer com garras nas juntas dos dedos. Apesar de que tem quem me convença a fazer coisas só com o olhar, como a mulher do Wolverine.
O que quero dizer é que os médicos deveriam tratar nossas semelhanças como um acaso e não como ciência. Se eles partissem do princípio de que ter dez dedos é mera coincidência e não o que nos define como seres humanos, quem tem doze dedos ou mesmo nove seria tão normal quanto todo mundo. E não haveria piadinhas imbecis sobre o presidente. Não que ele não mereça certas piadinhas imbecis, mas vamos combinar que fazer piadinha sobre a falta de um dedo do presidente é o que há de mais imbecil no mundo das piadinhas.
Cada vez que vou fazer aqueles exames femininos , todo o ano, mais me convenço de que somos todos únicos, e que aquele monte de médias, estatísticas e limites são convenções que mais atrapalham do que ajudam. Ninguém quer saber de nada da sua vida, vão enfiando coisas, vira pra cá, vira pra lá, de repente você se vê com a cara amassada em uma placa de acrílico, enquanto uma placa de metal gelada faz as vezes de rolo de compressor de desenho animado e transforma seus peitos em uma folha de papel.
Quem dera nossas diferenças fossem tomadas como especialidades que nos definem. Num mundo em que todo mundo precisa ser tão especial para ser alguma coisa, o fato de minhas células se organizarem da forma como são organizadas deveria ser suficiente para que eu fosse eu mesma, mais ninguém. E para que isso, em si, já fosse muito especial.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Eu poderia ter tempo

Se eu não fizesse matéria sobre mesinha.
Se eu não aceitasse assistir os curtas do festival.
Se eu não tivesse que cobrir a festa junina do cliente.
Se eu não participasse de duas reuniões de quatro horas cada uma para um trabalho que vai rolar se pans, mas que a verba é curta.
Se eu continuasse achando minha família um saco e fugindo de todos os compromissos.
Se eu não tivesse decidido transformar meu hobby numa nova fonte de renda.
Se eu não tivesse tantos amigos legais.
Se eu não fizesse tudo o que tenho vontade (que é tudo menos fazer matéria de mesinha).
Eis-me aqui, sobrecarregada de novo.
A diferença é que agora estou feliz.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um elogio doce

Num dia recente e muito feliz, ouvi um dos melhores elogios que já recebi. Tinha acabado de montar um livrinho com os primeiros poemas da minha safra, primeiros de toda a vida, eu que nunca tinha escrito sequer um batatinha-quando-nasce cover. Com o livrinho na mão, venci uma verdadeira batalha, passei por cima de legiões de soldados da autocrítica, e li um poeminha alto, com o rosto vermelho de vergonha e a voz embargada.
Quando acabei, uma pessoa que estava na sala disse que quando ouviu o poema lhe veio à cabeça a imagem daquela balinha antiga, que tinha desenhinhos no meio, muitas vezes uma florzinha. Eram umas balinhas que vinham em vidro, sempre com as bordas raiadas de verde e rosa e no centro um desenho pequeno. As tais balinhas sempre me intrigaram, porque eram tão lindas e eu nunca soube como se fazia.
Descobri a foto no blog Panela de Cobre, onde o autor menciona que são fabricadas por uma empresa chamada Galo Doce, a mesma que faz aquelas balinhas azedinhas que imitam um gomo de mexerica.
Fala se não é muito fofo parecer essa balinha?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Chuchu no fio

Na minha rua tinha um chuchu. Sabe-se lá quem foi o incauto que jogou uma semente de chuchu naquele quadradinho de terra da árvore frondosa que protege o ponto de táxi, bem aqui na esquina.
A trepadeira intrépida subiu pelo caule, se enroscou toda na copa e ganhou o fio de alta tensão. Enrolando-se exatamente como o fio se enrola em si mesmo, deu um colorido extra - e algumas folhas - a toda aquela aridez.
Por mais de dois metros de extensão a trepadeira cresceu enrolada e então decidiu dar frutos. Nasceu um chuchu bem no meio do fio, a mais de quatro metros de altura, entre o telhado da pizzaria e o ponto de táxi.
Feliz da vida, o legume vê o mundo de cima, observa os frequentadores do bar em frente e confirma o quanto a voz do povo não se engana. Chuchu dá mesmo em qualquer lugar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Temporal

O vento latente inquieta. Ainda nem começaram as rajadas e todos já estão eletrificados. As coisas caem sem porquê. A xícara entorna sozinha o café com leite sobre a camisa recém vestida. A vassoura ensaia um voo improvável depois de um chute de leve e derruba o vaso. Os gatos eriçam os pelos e se escondem no fundo dos armários.
As árvores aproveitam para fazer a faxina geral e desprendem as folhas de outono e a galharia seca. As mais antigas, incrustadas de cupins, se acautelam. Foi em outra ventania como essa que a outra caiu, arrastando fios elétricos e arruinando carros.
As pessoas correm sem pressa, só para fugir desse peso suspenso, dessa ânsia espantosa. O clima de iminência é tanto que contagia também a rede elétrica e um transformador explode na minha frente, deixando o bairro todo no escuro.
Aí vem a chuva. Começa com pingos grandes e esparsos, transforma o dia em noite, levanta o cheiro da terra por baixo do asfalto. Alívio provisório. Depois, caos.

domingo, 3 de maio de 2009

Instruções para tomar um ônibus

Caminhe até o ponto de ônibus mais próximo, de preferência em saltos altos e meias-calças cor-da-pele, sob o calor abrasador de uma manhã de verão de São Paulo.
Durante o trajeto, deixe o salto penetrar em um dos inúmeros buracos da calçada, de modo a desgastar-lhe o couro ou a cortiça, sem, contudo, dar-se ao trabalho de quebrá-lo. Bastam algumas imprecações e a dúvida: Volto ou não volto?
O calor é grande, o caminho já vai pelo meio, melhor tocar adiante. Agradeça o fato de a meia ter-se mantido intacta.
Ao chegar ao ponto, torça para haver um assento ou ao menos uma parede em que se apoiar. Em não havendo, alterne o equilíbrio das pernas entre uma e outra, deixando escorrer entre a perna e a meia uma e outra gota furtiva de suor.
Aguarde cerca de meia hora e, ao perscrutar o monstro cor de abóbora que se aproxima, caminhe em direção ao meio-fio acompanhando a multidão que se formou e agarre a bolsa junto ao peito para evitar que lhe seja arrebatada, ou que caia revelando pente, batom, fotos 3 x 4, bilhetes de loteria e afins. Equilibre-se nos degraus até chegar ao cobrador e mais uma vez use o pensamento positivo para que ele tenha troco. Acomode-se entre a axila do sujeito à esquerda e a mochila da Hello Kitty da garota à direita e boa viagem.
Repita a operação cinco vezes por semana, pelo menos duas vezes ao dia.