Por falar em placebo emocional, vou tentar explicar esse conceito por mim desenvolvido com um exemplo. Sabe aquele filme com o Jack Nicholson e a Helen Hunt, "Melhor é impossível"? Tem o Greg Kinnear, que faz papel de um gay.
Lá pelas tantas, o coração do Jack Nicholson tá começando amolecer e o casal to-be arma uma viagem para levar o Kinnear à casa dos pais. No meio do caminho, o Jack Nicholson pisa na bola, seguindo seus instintos masculinos mais baixos, e ela é obrigada a se refugiar no quarto do cara que se revela um dos melhores placebos emocionais da história.
O cara não só dá o colo que ela precisa, como levanta horrores a auto-estima dela e ainda a faz morrer de rir. Veja se não é um exemplo crasso de placebo emocional. E não é nada além disso, porque ele não está interessado nela e ela sabe que daquele mato não sai coelho. Mas tudo bem, porque funcionou num momento específico e pode ser que nem role de novo.
Em geral, os placebos da vida real não são tão completos assim. Eu preciso de vários para suprir uma série de necessidades que vão além da amizade. Os amigos em geral suprem minha carência de ombro para chorar as pitangas, companheiros de balada e cobaias para a minha comida.
Mas os placebos ocupam funções muito particulares. Por exemplo, um amigo gay às vezes ia dormir em casa quando não tinha como voltar de festas. Aí como só tinha espaço na minha cama, a gente dormia junto e eu acordava 50% mais feliz, como se tivesse dormido com um namorado, porque a gente ficava conversando até de madrugada sobre a vida, o universo e tudo o mais e isso me é praticamente 50% da alegria de ter um homem pra chamar de seu.
Depois tem aquele placebo a quem você pode recorrer com intenções mais sórdidas, a coisa acontece e cada um vai embora sem maiores. Não rola constrangimento, tudo se resolve ali mesmo e os dois deitam a cabeça no travesseiro e dormem, cansados, não importa se juntos ou separados.
Só pra ressaltar: o cara cumpre um papel que pode interessar só a você, curte junto e só. Em outros momentos, você pode ser amigo dessa pessoa e desenvolver atividades mutuamente agradáveis. Mas os placebos emocionais são, em última análise, funcionais. E, por princípio, não costumo dormir com meus amigos.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Sê bem-vinda
Estou aqui toda feliz porque amanhã minha terapeuta volta de férias, depois de um mês e meio viajando pela Europa e Índia. Acredito que me comportei muito bem nesse período. Mas vai ser bom reencontrá-la, porque minha vida sentimento-emocional, que passou o ano passado inteiro mais árida que o deserto de Sonoma, está toda agitadinha este ano.
O saldo não foi tão positivo, mas pelo menos estou me divertindo um pouco, sem grandes fritações mentais. Pra resumir, vou contar pra ela que:
- tive uma recaída com meu placebo emocional primordial, o que foi ótimo;
- fiquei sabendo que um antigo prospect um pouco mais velho do que eu está namorando uma banqueteira famosésima muito mais velha do que eu, o que me gerou sentimentos contraditórios; ao ouvir a notícia, fiquei passada; em seguida, achei que isso pode dar um up no meu conceito, já que a namorada é realmente poderosa;
- para ser bem rampeira, dei um pé na bunda e, por assim dizer, tomei outro, mas tudo na santa paz.
O saldo não foi tão positivo, mas pelo menos estou me divertindo um pouco, sem grandes fritações mentais. Pra resumir, vou contar pra ela que:
- tive uma recaída com meu placebo emocional primordial, o que foi ótimo;
- fiquei sabendo que um antigo prospect um pouco mais velho do que eu está namorando uma banqueteira famosésima muito mais velha do que eu, o que me gerou sentimentos contraditórios; ao ouvir a notícia, fiquei passada; em seguida, achei que isso pode dar um up no meu conceito, já que a namorada é realmente poderosa;
- para ser bem rampeira, dei um pé na bunda e, por assim dizer, tomei outro, mas tudo na santa paz.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Legal ma non troppo
Essas histórias de bater papo com desconhecidos acontecem comigo sempre. Pára-raio de loucos, diria a Matina.
Foram várias histórias, mas a mais radical foi a vez em que fui madrinha de casamento de um cara que conheci no ônibus. Não o ônibus escolar, mas o coletivo mesmo. Tinha uns 16 anos e voltava todo dia de ônibus, duas horas e meia de trajeto, do cursinho, no Centro, para casa, em Interlagos. São quase 30km. O ônibus ia pelo corredor e parava no Terminal Santo Amaro, nonde a rente bardeava protra condução, o Jardim Satélite.
O noivo fazia o mesmo caminho que eu e às vezes segurava meu material, porque eu tomava no terceiro ponto e o ônibus já tava lotado. Ele entrava no Centro, a namorada no Itaim. Não tinha celular, mas eles se coordenavam e tomavam o mesmo ônibus. Acho que tinha era pouca condução... A gente sempre conversava, até que os pombinhos resolveram se casar e me convidaram pra madrinha. Aceitei, né? Ia fazer o quê? Meu namorado na época, um santo, ainda foi comigo uma vez num almoço de domingo no Grajaú, logo depois do casório, quando fomos visitar a casa deles. Mas não consegui levar adiante a amizade, porque entrei na faculdade e um mundo novo se abriu. Ele ligava sempre pra casa, às vezes desabafava com a minha irmã, dizendo que eu era uma madrinha relapsa.
Eu era mesmo. Mas ele já me perdoou, dia desses que me achou no Orkut. Também já separou daquela mulher, já tem outra, tá tudo lindo. Demorou um pouco, mas aprendi que a gente não pode ser tãoooo legal com as pessoas, sabe? Porque elas vão querer que você seja legal sempre. E se um dia você não tiver vontade de ser legal, elas vão ficar de mal.
Li uma vez uma declaração do Ziraldo dizendo que a maior maldição para o ser humano era a frase do livro de miss, O Pequeno Príncipe, que diz que tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Na hora achei absurdo alguém questionar isso, mas hoje acho que o Ziraldo tem razão. Ser muito legal pode ser uma amolação duradoura.
Ano passado dei mole prum velhinho em Buenos Aires e o que era um papo furado no meio da rua virou um convite pra jantar, que eu não soube recusar, e uma cantada muito ordinária no final. Ainda não aprendi a dizer tudo o que penso na lata para quem não conheço bem. Sou expert em tocar o dedo na ferida dos amigos, mas sempre poupo os conhecidos. Tenho treinado, estou tentando.
Foram várias histórias, mas a mais radical foi a vez em que fui madrinha de casamento de um cara que conheci no ônibus. Não o ônibus escolar, mas o coletivo mesmo. Tinha uns 16 anos e voltava todo dia de ônibus, duas horas e meia de trajeto, do cursinho, no Centro, para casa, em Interlagos. São quase 30km. O ônibus ia pelo corredor e parava no Terminal Santo Amaro, nonde a rente bardeava protra condução, o Jardim Satélite.
O noivo fazia o mesmo caminho que eu e às vezes segurava meu material, porque eu tomava no terceiro ponto e o ônibus já tava lotado. Ele entrava no Centro, a namorada no Itaim. Não tinha celular, mas eles se coordenavam e tomavam o mesmo ônibus. Acho que tinha era pouca condução... A gente sempre conversava, até que os pombinhos resolveram se casar e me convidaram pra madrinha. Aceitei, né? Ia fazer o quê? Meu namorado na época, um santo, ainda foi comigo uma vez num almoço de domingo no Grajaú, logo depois do casório, quando fomos visitar a casa deles. Mas não consegui levar adiante a amizade, porque entrei na faculdade e um mundo novo se abriu. Ele ligava sempre pra casa, às vezes desabafava com a minha irmã, dizendo que eu era uma madrinha relapsa.
Eu era mesmo. Mas ele já me perdoou, dia desses que me achou no Orkut. Também já separou daquela mulher, já tem outra, tá tudo lindo. Demorou um pouco, mas aprendi que a gente não pode ser tãoooo legal com as pessoas, sabe? Porque elas vão querer que você seja legal sempre. E se um dia você não tiver vontade de ser legal, elas vão ficar de mal.
Li uma vez uma declaração do Ziraldo dizendo que a maior maldição para o ser humano era a frase do livro de miss, O Pequeno Príncipe, que diz que tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Na hora achei absurdo alguém questionar isso, mas hoje acho que o Ziraldo tem razão. Ser muito legal pode ser uma amolação duradoura.
Ano passado dei mole prum velhinho em Buenos Aires e o que era um papo furado no meio da rua virou um convite pra jantar, que eu não soube recusar, e uma cantada muito ordinária no final. Ainda não aprendi a dizer tudo o que penso na lata para quem não conheço bem. Sou expert em tocar o dedo na ferida dos amigos, mas sempre poupo os conhecidos. Tenho treinado, estou tentando.
Estreitando laços
Ainda não conheço a Mara, mas agora já conheço a Rose. Ela inclusive mandou um recado: disse pra eu avisar a Mara que ela é uma tratante, que não aparece pra visitar a comadre. O recado me foi passado esta semana, depois que a Rose tentou – em vão – ligar no meu celular várias vezes. Da primeira vez foi a cobrar, daí já me liguei que não era pra mim, era pra Mara. Não bastasse, eu ainda confundi o telefone da Rose com o da minha roomie e mandei uma mensagem de texto pra ela.
Aí a Rose me ligou de novo, achando que era pra Mara, e tivemos a oportunidade de dar boas gargalhadas – depois que eu contei que já conheço várias facetas da vida da madrinha do filho dela, graças às pessoas que ligam errado pro meu celular. Pra quem não leu o post anterior, ela tem o mesmo número que eu, com prefixo de Santos. Continuo sem saber se as pessoas ligam errado ou se é algum buraco negro do sinal da Claro. Mas o fato é que tenho uma nova amiga.
Aí a Rose me ligou de novo, achando que era pra Mara, e tivemos a oportunidade de dar boas gargalhadas – depois que eu contei que já conheço várias facetas da vida da madrinha do filho dela, graças às pessoas que ligam errado pro meu celular. Pra quem não leu o post anterior, ela tem o mesmo número que eu, com prefixo de Santos. Continuo sem saber se as pessoas ligam errado ou se é algum buraco negro do sinal da Claro. Mas o fato é que tenho uma nova amiga.
Reforma ortográfica
No meu livro de redação da quinta série do primeiro grau (hoje sexta séria do ensino fundamental), tinha uma crônica sobre acentuação. Posso estar totalmente equivocada dos detalhes, mas basicamente um professor de português entrava numa loja de armarinhos numa cidade de interior e comentava com o proprietário que faltava um acento no A do letreiro da loja, que dizia Aguia de Prata. O hómi (paroxítona terminada em "i") logo respondia que não, tava certo do jeito dele, porque não era Águia, mas Agúia. De qualquer forma, faltava um acento... Sem ele, a leitura seria "aguía", certo?
As crianças nunca mais vão entender o trocadilho depois que a reforma ortográfica for implantada em 2010, porque com ela caem de vez os acentos da base dos ditongos abertos, como queria o matuto. Logo, palavras como agúia e zóio não serão mais acentuadas.
Me disse uma revisora esta semana que ela já está revisando didáticos para 2010, tendo que aprender as novas regras sem deixar de lado as velhas. Muita gente, diz ela, está tirando o acento também de palavras como saúde, achando que é a mesma coisa. Mas não é: aí é "i" ou "u" tônico dos hiatos (foi assim que me ensinaram na escola) e essa regra continua existindo. Muita gente pode achar complicado, mas conhecendo as regras se vê que elas têm uma certa lógica. Podiam ser mais simples, claro, mas cumpriam sua função.
Eu que tinha um apreço todo especial pelo trema, estou lamentando sua partida... para sempre, como intuiu a Folha de S.Paulo. Reza a lenda que quando a Folha informatizou a redação, o sistema adquirido não tinha trema. Logo, o jornal, sempre na vanguarda, reformou a ortografia do português limando oficialmente o trema de seu manual de redação. Quando fui trabalhar lá na área de livros, reabilitamos o combalido trema, mas agora teremos de nos despedir mesmo.
As mudanças não são só essas, têm mais. Tenho pena de quem está saindo da escola nos próximos anos. Não vão ter tempo de aprender de novo e vão acabar escrevendo errado para sempre...
As crianças nunca mais vão entender o trocadilho depois que a reforma ortográfica for implantada em 2010, porque com ela caem de vez os acentos da base dos ditongos abertos, como queria o matuto. Logo, palavras como agúia e zóio não serão mais acentuadas.
Me disse uma revisora esta semana que ela já está revisando didáticos para 2010, tendo que aprender as novas regras sem deixar de lado as velhas. Muita gente, diz ela, está tirando o acento também de palavras como saúde, achando que é a mesma coisa. Mas não é: aí é "i" ou "u" tônico dos hiatos (foi assim que me ensinaram na escola) e essa regra continua existindo. Muita gente pode achar complicado, mas conhecendo as regras se vê que elas têm uma certa lógica. Podiam ser mais simples, claro, mas cumpriam sua função.
Eu que tinha um apreço todo especial pelo trema, estou lamentando sua partida... para sempre, como intuiu a Folha de S.Paulo. Reza a lenda que quando a Folha informatizou a redação, o sistema adquirido não tinha trema. Logo, o jornal, sempre na vanguarda, reformou a ortografia do português limando oficialmente o trema de seu manual de redação. Quando fui trabalhar lá na área de livros, reabilitamos o combalido trema, mas agora teremos de nos despedir mesmo.
As mudanças não são só essas, têm mais. Tenho pena de quem está saindo da escola nos próximos anos. Não vão ter tempo de aprender de novo e vão acabar escrevendo errado para sempre...
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Presente pra mim
Quando estive no Rio há algumas semanas, fui na Livraria da Travessa de Ipanema, um dos meus lugares preferidos da vida. Tinha saído da praia, comido comida japonesa, meus amigos foram pro Maraca, mas eu preferi voltar caminhando pra Copa.Entrei na livraria, que estava cheia de uma forma decente, e logo vi essa capa. Um mosaico super colorido, com alguma coisa de rosa choque. Era um livro da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, com matérias que ela publicou no El País.
Fiquei passada. A capa, perfeita. O conteúdo, inédito. Resolvi levar, claro. Subi pra tomar um café segurando o livro, olhando, folheando, namorando. Consegui sentar na hora e tomar um café, coisa que é quase impossível nas melhores livrarias de São Paulo.
Na hora de pagar, o caixa me perguntou: "É pra presente?". "Sim", respondi. E trouxe o livro embrulhado para São Paulo. Ficou em cima da cômoda, esperando. Segunda-feira achei que merecia ganhar um presente. Abri o pacote com cuidado, tirei o livro de dentro. Namorei mais um pouco aquela capa linda, e comecei. Estou pensando inclusive em escrever uma dedicatória pra mim.
Boas risadas
Tenho uma nova flatmate que parece muito séria. Mas é muito bom quando a gente faz ela rir, porque ela tem uma gargalhada muito boa de se ouvir.
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