quarta-feira, 26 de março de 2008

Alô, dona Lizandra

É de manhã, vem o sol e com ele a ressaca. A gente perde a hora, mas não por muito tempo. Logo toca o telefone e é ela, a fofa representante da LBV. Não existe telemarketing mais infernal do que o da LBV. Dá um ódeo no fundo do nosso coraçãozinho. Especialmente porque as fofas ligam antes das nove da manhã, com aquela simpatia toda, te chamando de dona. E não basta a gente ter caído no conto da LBV uma vez, e aceitado dar uma contribuição mensal, que elas ligam agradecendo horrores e logo dão o bote: uma hora é o ovo de páscoa, outra o material escolar. E foi assim que eu acordei hoje.
Bebe na terça-feira, desgraçada, bebe e perde a hora da academia pra você ver. O castigo vem pelo telefone.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Final aberto

Toda vez que minha ex-sogra via um filme com final aberto, ela viajava no que tinha acontecido depois. Aí, se não ficava claro que o casal tinha ficado junto, ela dizia: "Ah, mas depois eles se encontraram e colocaram tudo em pratos limpos". Não, minha gente, final é aberto é final aberto. Serve pra aprender que nem tudo nessa vida tem explicação. E talvez seja melhor que não tenha mesmo.

Banho de água fria

Pesquisas científicas comprovam que banhos de água fria são muito benéficos à saúde. Têm o poder de reenergizar o corpo, fazendo o sangue circular mais rápido. E a água fria leva pensamentos e sentimentos inúteis, dando uma providencial congelada no cérebro. Tô saindo pra academia, esperando encontrar uma aula de artes marciais, podendo exercitar, assim, umas voadoras.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Em prol do silêncio

Se tem uma coisa que acaba com um filme é uma trilha ruim. No Brasil, tenho a impressão de que quase todo diretor de cinema to be tem um amigo músico to be. Então quando o diretor vai fazer um filme, já está implícito que seu amigo vai fazer a música. Mesmo quando o filme não precisa de música alguma. O resultado costuma ser uma música incidental constante, irritante, especialmente nos curtas.
Ainda tem as trilhas que tentam cutucar a emoção do espectador, criando clima de novela. "Agora ri", diz a trilha. "Agora chora." É um alívio quando um filme tem músicas boas e os silêncios fundamentais. Uma das melhores trilhas de filme brasileiro pra mim é a do "Houve uma vez dois verões", do Jorge Furtado. Tem várias bandas gaúchas fazendo uns covers sensacionais. A do "Meu nome não é Johnny" é bacana também. E o filme tem silêncios, ufa.
Mas trilha ruim não é privilégio nosso. Ontem assisti "Simplesmente Martha", que é o filme original alemão que virou a versão americana "Sem reservas", com a Catherine Zeta-Jones. Jesus alado! Que música medonha! Começa um pianinho até que razoável que vira um solo de sax digno do Kenny G. Cada vez que o sax começava, dava um arrepio de vergonha alheia. O filme tem uma mão mais leve na direção, os atores são ótimos, a transição da personagem principal é mais sutil. Mas a trilha... de matar.
Vi "Sangue Negro", do PTA, no domingo e achei a trilha meio pesada. O começo do filme é sensacional, devem ser mais de 20 minutos sem nenhum diálogo. Aí a música funciona bem. E como o filme é do PTA, não é uma trilha convencional. Mas tem horas que fica alto demais, trágico demais. Fiquei reparando na imagem pra ver se teria a mesma força sem a música por trás. Acho que não teria não.

terça-feira, 18 de março de 2008

Mais vale um gosto

Sim, eu atraio pessoas peculiares — para não dizer que sou pára-raio de loucos, como algumas amigas gostam de me chamar.
Estava lembrando hoje de uma figura que trabalhou em casa. Ela adorava cinema e televisão e ficou louca quando soube que meu ex trabalhava com cinema. Ela era uma pessoa de opinião.
Naquela época, a Record exibia uma novela com o Mauricio Mattar. Ele era um mega empresário, que numa linha cruzada conversa por acaso com uma presidiária e os dois se apaixonam (!). A empregada do Mauricio Mattar era uma atriz amiga nossa, e na novela se chamava Matilde. Quando contamos para a moça que conhecíamos aquela atriz, ela ficou louca. "Nossa! A Matilde? É minha atriz preferida! Ela e o Seu Cocada." Seu Cocada, para quem não se lembra, era um personagem absurdo de um programa de humor desses de quinta catigoria, interpretado pelo Rony Cócegas.
Cinematograficamente, a moça gostava basicamente de filmes de terror. Seu predileto era "Chuck, o Brinquedo Assassino", que ela carinhosamente tinha apelidado de "o Boneco". Como o marido dela trabalhava numa locadora, ela tinha conseguido uma cópia do filme, que sacava sempre que a novela estava chata. Quando ela chegava de manhã, o Paulo perguntava: "Então, o que você assistiu ontem?" Ao que ela prontamente respondia: "Ah, a novela estava chata, então vi o Boneco".

segunda-feira, 17 de março de 2008

Casa vazia

Pensei que hoje ia fazer calor e eu ia abrir as janelas, que era a única coisa de que sentia falta com a galera morando aqui em casa. Mas agora Laurence e gatas foram embora e a casa está assim, vazia. E eu me pego prestando atenção na porta do quintal ou da sala, pra ver se alguém não escapuliu.
Levei as três ao aeroporto. A pobre Chiquinha, num cesto rosa-barbie, totalmente zureta. E a Caliope ainda meio dopadona do tal do remédio pra dormir, embarcada com as malas. Foi triste, triste ver as três indo embora. Realmente, a gente acostuma com as coisas mais incríveis.
Bon voyage, meninas!

quinta-feira, 13 de março de 2008

A vida é feita de som e de culpa

Uma conversa furtada no café da ruelinha do ABN, aquele beneficente. Uma atendente diz para a outra:
— Uma amiga minha, sabe? Trabalha no Amor aos Pedaços. Na véspera do Natal, ela resolveu pintar a unha de vermelho de manhã, porque ela ia sair às 10 da noite. Cê sabe que quem trabalha com comida não pode pintar a unha, né?
— Sei.
— Então, daí uma cliente viu e falou isso pra ela, que ela não podia pintar a unha.
— Hum.
— Aí ela respondeu: "A senhora vai passar o Natal com a sua família?" E a mulher, claro, respondeu que sim. "E a senhora vai se arrumar, fazer o cabelo, a unha?" Claro, a mulher respondeu. "Então. Eu também", ela falou. "Mas só saio daqui às 10, né? Então tive que fazer a unha de manhã."
Segundo a atendente, a mulher ficou tão sem graça de ter peitado a vendedora que deu 50 pilas pra moça ir fazer o cabelo.
No fundo, a mulher não tava errada. Ninguém morre se passar o Natal sem pintar a unha de vermelho. E em qualquer lugar sério, quem trabalha com comida não pode pintar a unha, porque esconde a sujeira, porque pode descascar no prato alheio.
Mas a criar caso realmente é um problema sério neste país.