sábado, 1 de março de 2008

Água que se bebe

Num encontro histórico na última quarta-feira, Raquel enumerou para um amigo nosso as minhas contradições nesses quase 20 anos que a gente se conhece. Todas as vezes que disse "dessa água não beberei" e depois quase me afoguei na mesma água. Não é fácil constatar isso. Porque, basicamente, significa que fico por aí pontificando e depois faço tudo ao contrário. E como discrição não é a palavra que me descreve, todo mundo fica sabendo do antes e do depois.
Aconteceu isso com bichos. Eu nunca dei a menor pelota pra cães e gatos, e depois tive duas cachorras de dormir na cama, abraçar e beijar. E uma até hoje tenho certeza de que não é uma cachorra, é minha alma gêmea, meu deamon que eu não vejo há um ano. Agora as duas gatas aqui de casa vão embora e sei que vou sentir falta até da maligna traiçoeira, que nem me arranha mais.
Acontece sempre que eu decreto que uma coisa é definitiva. Sempre que eu defendo um ponto de vista com veemência. Porque eu mesma sempre procuro o outro lado. Desde o colégio, sempre me aproximei das pessoas menos queridas, pra ver o que mais tinha ali. Com isso, estou sempre cercada de gente polêmica. Mas quase sempre tive boas surpresas. Então nada melhor do que cair em contradição.

Amiga bissexta

Lulu é minha amiga bissexta, não por encontros esporádicos mas porque é a única pessoa que conheço que nasceu no dia 29 de fevereiro. E alguém que nasce num dia que só acontece a cada quatro anos não é uma pessoa comum. É a única unanimidade que não é burra. Burro seria alguém que não visse o que existe atrás daquele sorrisão, daquela ingenuidade que ainda sofre de ver que tem gente que não é assim, que tem gente ruim. E ela se esforça pra provar o contrário, insiste.
Ontem ela fez seu nono aniversário e de olhar pra todos aqueles amigos reunidos vi que ela tem sido tudo menos bissexta na minha vida. Pra todos os momentos, todas as birras e chatices, pra muitas gargalhadas também. Numa festa por onde mais de 50 pessoas passaram, eu conhecia todas - da família aos amigos mais distantes. Porque ela me carregou pra todo lado com ela, dividiu seus amigos e problemas, jantares, cafés-da-manhã e almoços. Amiga, 366 dias por ano.

O Nada persiste

Passou uma semana, hoje o barulho era do caminhão de concreto, oito e meia da manhã. Laurence tem razão.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Nada em Perdizes

Acordo de ressaca de enxaqueca, oito e meia da manhã, e um barulho enlouquecido de furadeira sobre concreto vem do mega prédio que estão construindo aqui em frente. Há menos de um ano, eram quatro ou cinco sobradinhos daqueles de vó, iguais aos que existem em todos os bairros mais antigos de São Paulo, como o Ipiranga, onde eu nasci.
Minha flatmate tem certeza de que eles deixam o trabalho mais barulhento para ser feito aos sábados de manhã. Eu nunca estou aqui neste horário durante a semana, então não sei.
Mas tenho a sensação de que o bairro está sendo invadido pelo Nada, a mesma síndrome de falta de imaginação que acomete os personagens de "A História Sem Fim", de Michael Ende. Aqui, o Nada se materializa na derrubada das casinhas, na expulsão dos moradores mais antigos e na provável expulsão de nós, inquilinos, que gostamos do bairro porque ele é arborizado e tranquilo, porque tem velhinhos e cachorros, porque tem cara de bairro paulistano antigo. Mas não temos grana nem vontade de comprar um apartamento de 4 suítes com vagas para SUVs.
Os mega prédios vêm trazendo carros em fila dupla, crianças confinadas em resorts privês, muralhas que criam longos trechos escuros no lugar da luzinha que vinha das salas das casas, babás e seguranças. A mesma imagem que Jane Jacobs, a jornalista-urbanista que analisou a especulação imobiliária em Nova York na década de 60, enxergou de sua janela no Village. Ela diz que a verdadeira segurança existe quando se conhece os vizinhos e eles estão de olho no seu filho que brinca na rua. A verdadeira socialização das crianças, acreditava ela, acontece na rua.
Quem são essas famílias que já fazem a maior confusão na frente da nova padaria, refinada, com um tipo de clientes que a gente não via na nossa velha padaria, agora só frequentada pelos personagens folclóricos do bairro, o velho abobalhado de chapéu e suspensórios e sua turma?
O bairro ainda tem uma enorme concentração de gente do cinema, jornalistas, designers, músicos. Mas se a especulação imobiliária continuar, logo logo vamos todos ter de atravessar a ponte.

Uma dedicatória

Enquanto tomo café, resolvo abrir um livro de contos ou poemas pra ler um pouquinho. Ontem abri, depois de muito tempo, os poemas completos do Garcia Lorca. Foi abrir a primeira página e encontrei uma dedicatória. Nomes e just three words. Tudo fez sentido. Tudo existiu. É bom ter histórias.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Just a perfect day

Reclamo da minha vida, mas ora! Tem dias aparentemente normais que se revelam dias perfeitos, paulistanos, cheio de pessoas e boas conversas, do jeito que eu gosto. Fora o calor, que definitivamente não combina com São Paulo, ontem foi legal assim:
- acordei mega cedo, sozinha, porque acabou de mudar o horário de verão (eu adoro quando acaba o horário de verão)
- fui trabalhar de ônibus e às 8 e pouco já estava caminhando pela Paulista, da Consolação até o escritório, com um ventinho fresco no rosto
- encontrei meu sócio no caminho, descemos batendo papo e fomos tomar café
- encontrei uma amiga do prédio que me disse que eu estava ótima, ao que imediatamente repliquei: Sim, eu sei, porque eu sabia que estava mesmo
- trabalhei em 15 coisas ao mesmo tempo e consegui resolver duas antes do almoço, o que é um grande pogréssio
- fui almoçar com outra amiga do prédio e falamos bobagens na fila do quilo, com a médica que estava chegando, resultando em boas gargalhadas
- saí correndo pra pegar o metrô e me abalei para a estação Tucuruvi, a última da ZN, que eu não conhecia
- encontrei meu querido amigo Marcos no metrô, aquele que sempre me põe pra cima
- tomei um táxi pra Guarulhos e descobri que as avenidas principais de Jaçanã, Santana e Tucuruvi se encontram (adoro descobrir caminhos novos para velhos lugares)
- cheguei adiantada na minha reunião porque Guarulhos é muito perto do metrô Tucuruvi
- fiz três entrevistas e aprendi várias coisas
- o diretor financeiro me ensinou o que é hedge
- o funcionário que voltou para a escola depois de 30 anos disse que está adorando, porque ele fez um trabalho sobre o Obama e agora assiste o jornal e sabe quem ele é
- voltei de táxi, com outro taxista tão ou mais legal do que o primeiro, e vi vários grafites legais no Tucuruvi
- peguei o metrô de volta, desci nas Clínicas e fui pra Pinheiros de ônibus, o que levou no máximo uns 40 minutos
- tive mais uma reunião que prometia ser estressante, mas não foi
- encontrei o Marcito e fomos ver o piso do apê dele, além de dar mais um rolê pelo clube que é o lugar onde ele vai morar
- fomos ver o Urso de Cristal que a Diana e o Daniel ganharam no Festival de Berlim, com o curta Café com Leite
- subi pra Dr. Arnaldo com o Marcio a pé
- encontrei o Paulo Gregori, cineasta e professor da FAAP, no ponto e descobri que meu bairro tem mais cineastas do que qualquer outro, tanto que o objetivo de vida dele é ser o melhor cineasta da rua
- cheguei em casa às 23h30 e fui dormir feliz, depois de terminar de ler o livro "Amêndoa", que a Lu me emprestou.
Hoje acordei com vontade de ouvir Lou Reed.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Da ciência do bem-casado

Sem bem-casado um casamento não pode durar. O meu não teve, deu no que deu.
Acho que não ligava muito pra eles, mas hoje acho sublimes. O melhor que já comi é feito por uma confeiteira de Pinheiros, a Mariza. Na casa onde ela atende as noivas, tem bem-casados pra vender. Já fui comer durante a semana, de sobremesa, mas não é a mesma coisa de ganhar de alguém que lembrou de você num casamento, ou de comer depois do casamento que você foi.
Para ser perfeito, o bem-casado é uma equação exata entre bolo, recheio e cobertura. O bolo precisa ser macio e úmido, mas nunca encharcado. O recheio de doce de leite tem de ser distribuído em uma camada uniforme, nem tão grossa que dê cabo do gosto do bolo, nem tão fina que perca o gosto para o bolo. E a crostinha externa, de açúcar, tem de ter a espessura suficiente para criar a textura, sem virar uma maçaroca nem grudar demais no celofane.
Ah, porque primeiro o bem-casado é embalado no celofane, para depois receber o crepom e a fitinha. O visual também conta. É isso.