Quando ele chegou em casa o alarme tinha acabado de disparar. Era uma sirene forte, muito próxima. Podia ser do mercado ou do prédio em construção. Talvez do centro espírita. Mas tem alarme nesses lugares?
O som pára.
Entra em casa e vê a mulher largada no sofá, alerta, em frente à TV. Que estranho esse alarme, né? Agora que começou? Faz uns cinco minutos. O ruído volta. Começa assobiando e vai ganhando corpo até a estridência histérica que remete a uma tragédia brutal.
Foram encontrados cinco corpos carbonizados em um misterioso incêndio na loja dos supermercados Pão de Açúcar da Rua Apiacás, no bairro de Vila Pompéia. As vítimas ainda não foram identificadas.
Um intervalo de novo. Alguém grita um feladaputa de torcida de futebol. A mulher ri. Ó, o louco. Vai xingar o alarme? O som não pára mais. Diminui, parece que recobra o fôlego e volta. De novo. Vou lá fora ver. Ver o quê? Não tá ouvindo? Disparou um alarme. É, mas precisa ver de onde é, se é de incêndio. Senão a gente não sabe se liga pra polícia ou pros bombeiros. O barulho cede, a gata estremece, parva de medo. Os vizinhos estão todos na calçada, de roupão, chinelo. Vou lá fora. Pra quê? Já passa. O marido sai, a mulher se ajeita no sofá com a gata, que se eriça toda quando o barulho retorna, agudinho de novo. No fundo, o burburinho dos vizinhos, uma movimentação de carros. Ela abaixa o volume da TV, que já não se ouvia. A sirene então cessa e dá lugar ao silêncio absoluto. Ela sorve a surdez repentina, com alívio. O silêncio persiste.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Happy again
Calor cardíaco
Ventricular
Sem gargalhadas
Sem gritos
Sem espanto
Felicidade assim
Sem euforia
Ventricular
Sem gargalhadas
Sem gritos
Sem espanto
Felicidade assim
Sem euforia
Mediunidade social
As pessoas me contam suas vidas. No ponto do ônibus. Na Recoleta. Na fila do banco. Às vezes, numa troca de olhares, elas me contam tudo. É um tipo de dom, como se fosse uma mediunidade. Antes era descontrolado, como a mediunidade que se manifesta nas situações mais inapropriadas. Mas aos poucos vamos aprendendo a controlar, deixamos que se manifeste só na hora certa. Aprendemos a desviar olhares, rechaçar apelos e solicitações extremas de atenção. Ouvir pessoas carentes consome tanta energia quanto incorporar um espírito.
domingo, 28 de outubro de 2007
Musas e divas
Cibelle tem 24 anos, é paulistana, mora em Londres e faz um som incrível. Grande surpresa no Tim Festival frustrado, já que a Feist que eu queria tanto ver não veio. Mais do que a música, uma grata surpresa. Cibelle é engraçada, autêntica. Tenho a impressão de que há um tanto de auto-reconhecimento no tanto que gostei dela. Lembranças de que se pode ser livre e não se preocupar com o que os outros vão pensar, de que não é preciso ser igual a todos os outros para ser alguém. Obrigada, Cibelle, por me lembrar disso tudo.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Mãe é mãe
Depois que eu resolvi que mãe é mãe, está ficando cada vez mais divertido conversar com a minha, e com o meu pai também. Ontem demos boas risadas depois de eu confessar que gastei o dinheiro que eles me deram de aniversário num mapa astral. Em outros tempos eu negaria até a morte. Em outros tempos eu jamais faria um mapa astral.
Aí fui tentar explicar que tinha sido ótimo, que a astróloga é psicóloga e que nos demos superbem, que estou vivendo um momento legal bla bla bla. Daí conversa vai, conversa vem, e eu falei que estava me sentindo cada vez melhor e que quando eu estivesse preparada ia aparecer alguém legal, e todo aquele papo. Porque o assunto sempre acaba em homem, ou na falta de um.
É quando minha mãe se sai mais uma vez com uma daquelas: - Mas você precisa cuidar de sua aparência. Você usa alguma coisa no cabelo que não fica bom, parece sujo e opaco.
Meu cabelo é preto como a asa da graúna e enrolado. Nem sempre é um cacheado bonito, mas graças a esses leave-ins que minha mãe acha que ensebam o meu cabelo hoje eu gosto dele muito mais dele. Eu não vou dizer jamais porque estou mudando tanto que posso pagar a língua, mas tenho zero vontade de fazer chapinha japonesa. Estou muito bem obrigada com o meu cabelo. Mas minha mãe, que tem cabelo liso, não entende que cabelo crespo não se escova.
Foi engraçado, mas um pouco melancólico. Foi um deja-vu. E como eu não consigo não pensar no assunto e deixar pra lá, hoje não passei o leave-in. E o bicho tá rebelde feito a juba da Gal Costa.
Pra resumir a história, vou ter de fazer uma daquelas minhas sínteses jornalísticas cruéis, que minha família e alguns amigos odeiam: Minha mãe acha que eu não arrumo namorado porque não uso terninho e não penteio o cabelo.
E eu ainda me importo com a opinião dela...
Aí fui tentar explicar que tinha sido ótimo, que a astróloga é psicóloga e que nos demos superbem, que estou vivendo um momento legal bla bla bla. Daí conversa vai, conversa vem, e eu falei que estava me sentindo cada vez melhor e que quando eu estivesse preparada ia aparecer alguém legal, e todo aquele papo. Porque o assunto sempre acaba em homem, ou na falta de um.
É quando minha mãe se sai mais uma vez com uma daquelas: - Mas você precisa cuidar de sua aparência. Você usa alguma coisa no cabelo que não fica bom, parece sujo e opaco.
Meu cabelo é preto como a asa da graúna e enrolado. Nem sempre é um cacheado bonito, mas graças a esses leave-ins que minha mãe acha que ensebam o meu cabelo hoje eu gosto dele muito mais dele. Eu não vou dizer jamais porque estou mudando tanto que posso pagar a língua, mas tenho zero vontade de fazer chapinha japonesa. Estou muito bem obrigada com o meu cabelo. Mas minha mãe, que tem cabelo liso, não entende que cabelo crespo não se escova.
Foi engraçado, mas um pouco melancólico. Foi um deja-vu. E como eu não consigo não pensar no assunto e deixar pra lá, hoje não passei o leave-in. E o bicho tá rebelde feito a juba da Gal Costa.
Pra resumir a história, vou ter de fazer uma daquelas minhas sínteses jornalísticas cruéis, que minha família e alguns amigos odeiam: Minha mãe acha que eu não arrumo namorado porque não uso terninho e não penteio o cabelo.
E eu ainda me importo com a opinião dela...
Melhor de três
Três coisas que eu detesto (não são tantas ao todo) e três das muitas que eu adoro:
Eu detesto:
- A Vila Olímpia
- A combinação de publicitários e Carnaval na Bahia
- Cartórios em geral
Eu adoro:
- Meu carro novo
- O som do meu carro novo
- O André, que me deu o som do meu carro novo
(Ontem levei quase duas horas pra ir de Pinheiros à Vila Olímpia, todos os estacionamentos estavam lotados e custavam 10 pilas a hora, mas o que me salvou da loucura foi o fato de estar ouvindo música. Salve Chico Science!)
Eu detesto:
- A Vila Olímpia
- A combinação de publicitários e Carnaval na Bahia
- Cartórios em geral
Eu adoro:
- Meu carro novo
- O som do meu carro novo
- O André, que me deu o som do meu carro novo
(Ontem levei quase duas horas pra ir de Pinheiros à Vila Olímpia, todos os estacionamentos estavam lotados e custavam 10 pilas a hora, mas o que me salvou da loucura foi o fato de estar ouvindo música. Salve Chico Science!)
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Diálogos Improváveis I - O medo americano
- Eu bem que gostaria de ter um trauma, sabe? Pra mim, trauma é meio de vida. "Ah, eu não dirijo porque tenho um trauma". Medo também. "Ah, não viajo de avião porque tenho medo", "Não atravesso o viaduto porque tenho medo".
- Ah, mas você deve ter algum trauma. Você não é normal...
- Não é disso que estou falando, seu bobo. É dessas coisas que limitam a vida da pessoa. Eu não tenho nada disso, até acho muito conveniente, mas não tenho.
- Sei, essas coisas incapacitantes...
- É. Você, por exemplo. Tem medo de mariposa. Até grita de medo, sai correndo do quarto. É disso que eu tô falando.
- Bom, é, mas veja bem... O problema é que isso desencadeia uma crise.
- Como assim? É incrível, você tem medo de mariposa mas não tem medo de barata.
- É que barata eu posso matar. Porque eu tenho um medo americano de mariposa, mas não posso matar, porque as pessoas dizem: "ah, coitadinha, é um bicho que não faz mal a ninguém..."
- Medo americano? Como assim?
- Medo americano, essa vontade louca de matar. Americano não mata tudo que dá medo neles? É assim.
- Hahahahaha. Entendi. Você tem um medo americano de mariposa, mas tem culpa de matar.
- É.
Pois é, esse é o meu primo André.
- Ah, mas você deve ter algum trauma. Você não é normal...
- Não é disso que estou falando, seu bobo. É dessas coisas que limitam a vida da pessoa. Eu não tenho nada disso, até acho muito conveniente, mas não tenho.
- Sei, essas coisas incapacitantes...
- É. Você, por exemplo. Tem medo de mariposa. Até grita de medo, sai correndo do quarto. É disso que eu tô falando.
- Bom, é, mas veja bem... O problema é que isso desencadeia uma crise.
- Como assim? É incrível, você tem medo de mariposa mas não tem medo de barata.
- É que barata eu posso matar. Porque eu tenho um medo americano de mariposa, mas não posso matar, porque as pessoas dizem: "ah, coitadinha, é um bicho que não faz mal a ninguém..."
- Medo americano? Como assim?
- Medo americano, essa vontade louca de matar. Americano não mata tudo que dá medo neles? É assim.
- Hahahahaha. Entendi. Você tem um medo americano de mariposa, mas tem culpa de matar.
- É.
Pois é, esse é o meu primo André.
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